A brasileira Tânia Lisboa está gravando pela primeira vez a obra completa do compositor para violoncelo
Arquivo FolhaVilla-Lobos se aprofundou nos estudos do violoncelo que, ao lado do violão, era um de seus principais instrumentosMary Robert/DivulgaçãoTânia Lisboa está terminando o doutorado em performance musical na Universidade de Sheffield, na InglaterraReproduçãoOs dois volumes de ‘‘O Violoncello do Villa’’ armazenam parte das obras do compositor para o cello; um terceiro volume vai encerrar a série

Ilmar Carvalho
Do Rio de Janeiro

A violoncelista Tânia Lisboa está no Rio participando do 5º Encontro Internacional de violoncelos. Morando há 12 anos em Londres, ela trabalha para concluir o doutorado e continuar a carreira de recitalista na Europa. Considerada uma virtuose, a jovem paulista de Tatuí aproveita para materializar o lançamento de seus CDs gravados recentemente em Londres com a obra integral das peças para violoncelo de Villa-Lobos. Os discos vêm recebendo excelente acolhida da crítica européia. A gravação das obras completas de Villa-Lobos para violoncelo é considerada inédita.
O acompanhamento ao piano é de outra artista da nova geração, a recitalista Miriam Braga, professora – juntamente com Tânia – do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, de Tatuí. Com 4 mil alunos e corpo docente de alto nível, o estabelecimento é considerado o maior centro de ensino musical da América Latina.
Tânia Lisboa descende de uma família de músicos e começou a tocar piano aos quatro anos, passando para o violoncelo – que estudou com Gretchen Miller e David Chew, completando sua formação com Raphael Wallfisch e Richard Markson, em Londres. Estudou também com a famosa cellista francesa Maud Martin Tortelier, com quem está atuando neste 5º Encontro Internacional.
Antes de obter a bolsa da Capes para aperfeiçoar-se em Londres, Tânia venceu diversos concursos no Brasil como pianista e cellista, apresentando-se com a Sinfônica do Estado de São Paulo e na Rede Nacional de Música da Funarte. Obteve também premiação no Concurso Sul América de Música. Com a Orquestra Jovem Mundial Jeunesses Musicales apresentou-se no Canadá, Japão, Coréia e Polônia entre 1985 e 1986.
‘‘Com meu vínculo no Conservatório de Tatu풒, explica Tânia Lisboa, ‘‘divido-me entre o Brasil e a Inglaterra, desenvolvendo o Projeto Villa-Lobos, com o apoio da embaixada do Brasil em Londres e do Museu Villa-Lobos, sediado no Rio. Isto envolve workshops, seminários e palestras em escolas públicas para crianças, adolescentes e em universidades. Essa atividade é realizada tanto na Inglaterra como no Brasil, e agora o projeto será divulgado no México, EUA e Venezuela. Espero que essa idéia possa fazer parte do Projeto Brasil 500 Anos.’’
As atividades da violoncelista se estendem também à área didática e pedagógica com o doutorado em performance musical na Universidade de Sheffield. ‘‘Trata-se de uma pesquisa para o desenvolvimento e formação musical na adolescência. Independente desse doutorado e do Projeto Villa-Lobos, levo adiante minha carreira de recitalista. Devo me apresentar brevemente com orquestras sinfônicas no México, na Dinamarca, na Suíça, na Venezuela e no Brasil.’’
Posteriormente, Tânia Lisboa seguirá para Londres, onde vai se apresentar na Saint John’s Smith Square e no Wigmore Hall. Nos Estados Unidos, os concertos ocorrem na Universidade de Mariland e no Brazilian-America Cultural Institute. ‘‘Estou procurando estreitar meus laços no Brasil com a participação neste 5º Encontro Internacional, no Festival de Belém do Pará e por intermédio do Conservatório de Tatuí. Uma outra forma de retribuir meu aprimoramento técnico e pedagógico no campo musical e como cellista é aplicar em breve, em minha terra, todo esse conhecimento junto a crianças e adolescentes.’’
Não há notícia de gravações anteriores da obra integral de Villa-Lobos para violoncelo, que, como o violão, foi seu companheiro constante de juventude. O compositor conhecia profundamente os dois instrumentos, compondo para ambos peças hoje célebres. Em boa hora, portanto, Tânia Lisboa realiza em Londres essa primeira gravação mundial. O terceiro CD desta série, intitulada ‘‘O Violoncello do Villa’’, com os trios do grande compositor, deverá ser lançado em breve.
Com absoluto domínio do métier e sensibilidade interpretativa, a cellista observa que os CDs mostram um Villa-Lobos menos conhecido. ‘‘Trata-se de obras mais singelas em relação às suas peças sinfônicas, mas de grande expressividade melódica, pertencendo à primeira fase de compositor, na qual estava muito influenciado pelos grandes mestres franceses, como Debusy e Fauré.’’ Os dois trios que serão gravados em Londres e lançados em breve no terceiro CD são de uma fase posterior àquela em que o compositor escreveu o nº 1, que é de 1911. Este trio consta no segundo CD da série.
São 15 peças registradas que integram o opulento grupo da escritura camerística do compositor. Das pequenas peças do primeiro volume, podemos destacar ‘‘O Canto do Cisne Negro’’, que celebrizou-se entre os virtuoses do arco e faz parte do repertório universal do cello. Antes, é preciso esclarecer que, em sua maioria, os trabalhos da juventude do compositor situam-se esteticamente no âmbito do pós-romantismo e do impressionismo francês. A composição é marcada pela atmosfera de nobre expressividade da linha melódica, bastante evidenciada pela intérprete.
Por sua vez, a ‘‘Aria’’ da ‘‘Cantilena das Bachianas nº 5’’ tem emocionado o mundo nacionalista que começou por volta de 1920, e mostra um autor capaz de assimilar os valores vigentes, mas também de anunciar com veemência uma vontade própria que se configura em procedimentos mais ousados e uma temática de tendência nativista que começa a insinuar-se.
As peças da obra são de elevado interesse instrumental. Na camerística Bachianas nº 2, ‘‘O Canto do Capadócio’’, evoca o tipo pitoresco de malandro, ao passo que ‘‘O Canto de Nossa Terra’’ (ária) reflete a doçura de certas melodias nossas. O movimento que fecha a obra, ‘‘O Trenzinho do Caipira’’, descreve, em rústica simplicidade, uma viagem num trem pelo interior do País. Tânia Lisboa lembra que ao interpretar a peça em Londres, provocou uma insólita reação de grande empatia do público, que a aplaudiu vivamente, pedindo bis.
A ‘‘Segunda Sonata’’, obra da mocidade, pertence à fase universalista de Villa-Lobos, e contém acentuado mérito intrínseco. O ‘‘Trio nº 1 em Dó Menor’’, na expressão do crítico Eurico de França, é ‘‘obra de forma cíclica, que soa com plenitude, revelando Villa-Lobos com absoluta posse de seus recursos de compositor, utilizando uma linguagem universalista, ressaltando-se o plano modulatório da peça.’’
Tânia Lisboa está lançando ainda mais dois CDs, também gravados em Londres. O primeiro – ‘‘Gabriel Fauré (1845-1924) – Les Soirées Intimes’’ – registra a obra integral para violoncelo do compositor francês. O piano fica a cargo de Maria de La Pau Tortelier. A arte consumada dessa mostra transparece em sua obra de câmara, em que suas sutis inovações harmônicas, sua clássica elegância e sua impecável sensibilidade se combinam para produzir composições que figuram as mais valiosas do repertório de intérpretes.
Tânia Lisboa demonstra, nesta gravação, o motivo pelo qual sua carreira está em plena ascensão nos mais disputados auditórios europeus e da América Latina. E a confirmação está, mais uma vez, no recente lançamento londrino, ou o seu quarto CD – ‘‘Octachord – Virtuosos Duos’’ – onde a violoncelista Patrícia interpreta ao lado do violinista Cihat Askin composições de mestres do porte de Kodály, Gliére, Halverson, Honneger, e do brasileiro Ernani Aguiar.

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