‘‘Turismo culinário’’ é uma das mais novas ofertas de pacotes de viagens. O cliente não só come abundantemente como também aprende a preparar a melhor culinária italiana. O vilarejo de Montefalco, no topo da montanha, é um povoado umbriano adormecido, com seu cenário característico de olivais, vinhedos e velhos solares deteriorados. Os aldeões sorvem seu capuccino matinal de pé em um balcão e o aroma do alho sendo frito em azeite se espalha no ar. Não existem muitos cenários intocados como esse nos pontos turísticos mais badalados da Itália, onde os visitantes parecem ser em número superior aos moradores do lugar.
Em Montefalco, os poucos turistas estão, na sua maioria, fora do campo de visão – no subsolo da Pambuffetti Villa, aprendendo a diferença entre al dente e cozido demais. Todo mundo sabe que pode-se comer bem na Itália. Mas por que parar por aí se você pode passar suas férias aprendendo a fina arte de preparar pratos da culinária italiana? Em vez de perambular por igrejas, museus e lojas, um número cada vez maior de visitantes que vão à Itália está aproveitando o turismo culinário: picando e mexendo, prensando azeitonas, aprendendo a produzir vinho.
A Toscânia é o lugar mais popular para uma viagem relacionada à cozinha, assim como é para muitos outros tipos diferentes de turismo. Mas os visitantes também pode estudar culinária na Umbria ou até mesmo na perigosa Apulia. Podem auxiliar na colheita da uva em Piemonte ou fazer sobremesas com limão na costa Amalfi.
‘‘Há anos que penso em fazer isso’’, diz Jane Gantz, uma diretora de seleção universitária de 51 anos de Bloomington, Indiana, enquanto disseca cuidadosamente um tomate maduro na Pambuffetti Villa. ‘‘Sempre li revistas de culinária e assisti a programas culinários na tevê, mas isto é incrível.’’
Karen Herbst, proprietária da The International Kitchen, a firma com sede em Chicago que organizou a viagem, diz que seus clientes querem ‘‘uma experiência autêntica. E a forma mais simples de ser apresentado a um país é por meio da comida’’.
Alessandra Angelucci, cuja família é proprietária da Pambuffetti, e sua cozinheira, Anna, mesclam partes iguais de cozinha e folclore local para oferecer um curso de imersão completa na cultura italiana.
‘‘A cozinha faz parte de todo o italiano’’, diz Angelucci, enquanto experimenta uma vagem. ‘‘É por isso que esses alunos gostam tanto. Eles estão aprendendo história na cozinha, não apenas receitas.’’
Juntamente com a história e as receitas, os alunos também aprendem técnica. Anna, que não fala inglês, ensina Sharon Boerbon Hanson, uma especialista em relações públicas de Saint Paul, Minnesota, a mexer um molho bechamel.
‘‘Piano (devagar)!’’ comanda Anna, e Hanson, obedientemente, diminui o ritmo. ‘‘Ela é realmente muito paciente’’, diz Hanson, falando de sua instrutora. ‘‘Adorei a sociabilidade do grupo. Isso torna a viagem umas verdadeiras férias.’’
A moda do turismo culinário está sendo impulsionada pelo número crescente de chefs célebres dos Estados Unidos e da Europa. Há cinco anos, Lidia Matticchio Bastianich, a estrela do Lidia’s Italian Table, um programa da PBS, criou um negócio de turismo chamado Experienze Italiane, para cuidar de uns poucos clientes de um par de restaurantes que possui na cidade de Nova York. O negócio decolou a partir dali.
‘‘Os chefs de cozinha se tornaram famosos e há tantos canais 24 horas de culinária que todo mundo quer cozinhar’’, diz Shelly Burgess, uma outra co-fundadora da firma. ‘‘Quando eles se dispõem ao turismo culinário, os chefs amadores já aprenderam muito na televisão’’, acrescenta ela. ‘‘Agora todo mundo sabe o que é prosciutto’’, diz Burgess. ‘‘Antes desses programas de culinária, tínhamos o presunto estilo caipira da Virgínia e era o bastante.’’
A tendência para cozinhar e viajar começou na Itália no início da década de 90, quando o governo italiano começou a licenciar fazendas turísticas denominadas agriturismi. Qualquer pessoa que possuísse um pedaço de terra e uma casa de fazenda poderia transformá-la em uma hospedagem de primeira classe.
O governo determinou que as fazendas tinham que ensinar alguma coisa a seus hóspedes e tinham que produzir alguma coisa de verdade. Os produtos mais populares são azeite de oliva, vinho e guloseimas como pasta de trufas ou linguiça de porco selvagem, a maior parte disso vendido para os hóspedes.
A maioria das fazendas de agriturismo produz somente algumas centenas de garrafas de vinho ou de azeite de oliva por temporada, o que torna viável permitir a presença de espectadores no processo. Os hóspedes ajudam a colher a uva e até mesmo esmagam algumas com os pés – tempo suficiente para tirar uma foto. Ou então colhem azeitonas e ajudam na prensagem. Depois de saborear o vinho ou o azeite, muitos deles assistem às aulas de culinária que foram acrescentadas ao programa no decorrer dos anos.
Cozinhar na Itália não constitui férias baratas. A International Kitchen cobra US$ 2.050,00 por pessoa pela hospedagem e pelas aulas para um tour de culinária típico de seis dias na Umbria; as passagens aéreas são cobradas à parte.
A Esperienze Italiane cobra US$ 3.975,00 por seis dias em Piemonte, novamente sem a parte aérea. Ambas as empresas cobram um acréscimo de US$ 315 a US$ 580 para os clientes que viajam desacompanhados. (O departamento de turismo italiano diz que o maior contingente de viajantes de culinária é constituído de mulheres sozinhas com idades entre 35 e 55 anos.)
Fora o preço, o turismo culinário é uma festa tanto para as operadoras de turismo quanto para seus clientes. ‘‘Estas foram as melhores férias que já tive’’, diz Leslie Kent Kunkel, uma bibliotecária de 45 anos de Santa Barbara, Califórnia, enquanto sova uma porção de massa na cozinha do Pambuffetti.
Mas Angelucci, a proprietária da villa, está preocupada que o fato de se ter tantas cozinheiras falantes do inglês possa entornar o caldo italiano. À medida que mais e mais agências de turismo norte-americanas e britânicas enviam seus clientes para lugares como Montefalco, o turismo culinário tenta satisfazer os gostos deles e perde parte do sabor italiano, avisa ela. ‘‘É muito difícil não ser cegado pelo sucesso desses programas’’, comenta.
Parece que a receita para o sucesso é um delicado equilíbrio entre os ingredientes – como em qualquer prato gourmet.

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