Prestes a completar 30 anos, Patrícia França ainda mantém o mesmo ar brejeiro e jovial de quando tinha 20. Foi justamente nesta idade que essa bela morena de olhos expressivos e cabelos negros estreou na tevê, como a protagonista da minissérie ‘‘Tereza Batista’’. O jeito de menina só fez associar a atriz ao perfil da mocinha sofredora, como a Maria Santa de ‘‘Renascer’’, a Cláudia de ‘‘Sonho Meu’’ ou a Clarice de ‘‘Suave Veneno’’. Até pouco tempo, a própria Patrícia não conseguia imaginar como se sairia no papel de uma autêntica vilã, como a Blanca de Sevilha de ‘‘A Padroeira’’. ‘‘Fazer heroínas é muito difícil. Elas estão a um passo da chatice. As vilãs são bem mais divertidas e bem-humoradas’’, compara.
Além de ser a primeira antagonista da carreira de Patrícia, Blanca é também a primeira a oferecer um manancial cômico à atriz. Embora não seja uma personagem de tiradas risíveis ou cacoetes hilariantes, a cigana de ‘‘A Padroeira’’ é o cinismo em pessoa. Dissimulada, ela faz de tudo para conquistar a confiança de Valentim, o impoluto personagem de Luigi Baricelli. Só para desvendar o esconderijo do mapa que leva ao tesouro. Inconformada por não ser correspondida, a megera vai usar todo o seu poder de sedução para perturbar o romance de Valentim e Cecília, interpretada por Deborah Secco. ‘‘Não quero transformar a Blanca numa madrasta qualquer. Nem quero ficar fazendo caretas no vídeo. O público brasileiro é exigente e não aceita qualquer coisa’’, acautela-se.
O cuidado da atriz não tem razão de ser. De bruxa ou madrasta, Blanca não tem nada. Pelo contrário. A sonsa vilã de ‘‘A Padroeira’’ retoma a linha sensual inaugurada pela protagonista de ‘‘Tereza Batista’’. Blanca sabe como lançar mão de sorrisos, olhares e decotes para conseguir o que quer. ‘‘A Blanca é a personificação da Vênus’’, define, numa alusão à deusa romana do amor. Embora seja quente e pesada, a indumentária da personagem é a ‘‘menina dos olhos’’ de Patrícia. Repleto de anáguas, espartilho, véu e leque, o figurino remete a atriz ao distante Século XVIII. ‘‘Fazer novela de época é que nem brincadeira de criança. Você coloca a roupa e já incorpora a personagem’’, ri.
Se fugir do tom caricato foi a primeira preocupação da atriz, a segunda foi convencer como uma espanhola foragida da Inquisição. O idioma, porém, não chegou a ser empecilho. Patrícia fez um curso intensivo de espanhol em 1999, quando viajou para San Sebastian, no País Basco. Para atuar em ‘‘A Padroeira’’, se contentou em rever alguns filmes do cineasta Pedro Almodóvar. Mesmo assim, o sotaque ficou carregado. Tanto que o diretor Mário Márcio Bandarra se apressou em corrigir a pronúncia da personagem. ‘‘Foi um balde de água fria. Pedi um tempo para reorganizar as idéias e, já no dia seguinte, estava craque no ’portunhol’’’, brinca.
De fala mansa e sorriso largo, Patrícia garante que não poderia ter voltado às novelas em melhor ocasião. Há dois anos, se ausentou do vídeo após concluir a participação em ‘‘Suave Veneno’’. Na ocasião, não ficou nada satisfeita ao saber que a obstinada Clarice teria de morrer para o autor Aguinaldo Silva dar uma guinada na novela. Apesar dos pesares, guarda boas recordações de ‘‘Suave Veneno’’. ‘‘A experiência só não foi melhor porque não fiquei até o final. Mas a Clarice era o bicho!’’, diverte-se. Em seguida, Patrícia engravidou de Fernanda, hoje com um ano e dois meses. ‘‘Saudade dá quando você gosta do que faz. Mas, graças a Deus, pude curtir bastante a neném’’, derrama-se.
Nos últimos dois anos, o único convite que Patrícia recebeu para voltar à tevê partiu de Walter Avancini. Coisas de novela. Afinal, um dos sonhos da atriz era trabalhar com o experiente diretor. A microssérie ‘‘Dom Quixote’’, porém, nunca saiu do papel. Patrícia não realizou também o sonho de trabalhar com Avancini. O diretor se recupera de uma infecção e ainda não dirigiu nenhuma cena da atriz. ‘‘‘A Padroeira’ já valeu pelo simples fato de ter ouvido a preleção do Avancini. Ele sabe tudo de televisão’’, elogia.
Representar não é a única paixão da vida de Patrícia França. Desde pequena, essa pernambucana do Recife sempre gostou de ouvir música e cantar. O tempo passou e, em 1992, ela gravou um disco com o grupo Quinteto Violado. Na época, a moça dividia seu tempo entre as gravações da novela ‘‘Renascer’’ e os shows Brasil afora. ‘‘Acho que me saí bem, mas foi uma experiência muito sofrida. Eu me sentia nua no palco’’, exagera.
Depois de se apresentar por diversas cidades do país, Patrícia França priorizou a carreira de atriz. Mas, para a felicidade da moça, ela ainda soltou o vozeirão na novela ‘‘O Fim do Mundo’’. Na trama de Dias Gomes, Patrícia fazia Lucilene, uma insinuante cantora de boate. ‘‘Volta e meia, os diretores escalam umas múmias paralíticas para cantarem em cena. Aí, você percebe quem canta de verdade e quem fica só dublando’’, alfineta, sem citar nomes.
Desde que terminou de gravar ‘‘Suave Veneno’’, Patrícia França voltou a pensar na carreira de cantora. Mas, antes de se aventurar novamente por estúdios e shows, ela pretende retomar as aulas de canto e selecionar um repertório para o CD. ‘‘Não quero sair cantando por aí só porque tenho voz bonitinha. Nem vou gravar aquelas musiquinhas que fazem sucesso no Carnaval. Uma cantora de verdade tem de dizer a que veio e emocionar o público’’, assegura.

mockup