Vídeo mostra a dama dos papéis de bala
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terça-feira, 17 de março de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Enéas Gomes/DivulgaçãoEfigênia Rolim: cartão-postal de Curitiba faz arte com papéis de balaEfigênia Rolim, 67 anos, doura sua vida com as cintilações dos papéis de bala. Tem muito Sonho de Valsa pelo meio, mas o símbolo emotivo continua sendo um papel de bala de hortelã, desde aquele dia em que, mendigando na porta da Catedral de Curitiba, viu um brilho faiscante na calçada e imaginou que fosse uma jóia perdida. Mãe de nove filhos e com o marido doente, viu ali a redenção para sua miséria. Ao aproximar-se do que seria um diamante, deparou com a realidade - era papel de bala de hortelã.
A decepção transformou-se num caminho oposto à secura - Efigênia deu novo sentido à vida e começou a trabalhar com papéis. Um vídeo com 16 minutos de duração e um CD com três composições de sua autoria, fazendo dueto com a artista plástica Kátia Horn, serão lançados no final de abril no Museu da Imagem e do Som, em Curitiba.
Os autores do projeto são os cineastas curitibanos Estevan A.S. e Tiomkim. Eles passaram os últimos seis meses voltados inteiramente ao projeto, sem passar pelos âmbitos oficiais da Lei de Incentivo. Mesmo assim houve apoio do MIS, da Fundação Cultural do município, da Faculdade Eseei e da produtora Tradiz.
É um trabalho bem artesanal, explica Tiomkim. Os autores pretendem inscrevê-lo nos festivais de cinema e vídeo que acontecem no país. Nossa proposta é divulgar o vídeo fora de Curitiba, dizem. Na fita Efigênia Rolim conta sua história feita do branco e preto de uma existência sem graça, perdendo para a força do colorido do sonho e da imaginação.
Estevan acredita que Efigênia seja a única artista a trabalhar com papéis de bala no Brasil. Então por que não mostrá-la? Tem mais: ela é uma das mais dignas representantes de um grupo muito raro de pessoas que não se deixam vencer na vida, apesar dos reveses.
Isso sem contar que ela é também a verdadeira artista popular, conforme observa Tiomkim. Enfim, como poderia Efigênia, uma ex de tantas coisas - bóia-fria, catadora de papel, esmoleira -, dar-se ao luxo do aprendizado acadêmico? Seu cotidiano foi registrado em cerca de 70 horas de gravação. A edição ficou nos onze minutos.
Mostramos cenas onde ela aparece cozinhando, lavando, ensinando artesanato e fazendo teatro com as crianças da favela onde mora, antecipa Tiomkim. O vídeo adquire cor quando a mulher se transforma na Rainha do Papel e se torna a dona absoluta do seu reino.
Sou um postal de Curitiba, ela se apresenta. Mas ao contrário dos postais convencionais que anulam o que é feio, Efigênia escancara também esses lados. Reclama das escolas que não querem ensinar-lhe a ler e escrever - sua grande vontade no momento -, e mostra toda a tragédia que está vivendo agora.
Até bem pouco tempo um de seus filhos (doente mental, como ela diz), recebia pensão da Previdência Social, mas como mora com a mãe, perdeu o benefício. Como protesto, a desvairada varre as praças de Curitiba. Varre a vergonha de um País feito de abismos e injustiças. Nesses escuros não cabem a poesia dos papéis de balas.


