São Paulo, 22 (AE) - Gilberto Freyre dizia-se revolucionário e conservador, nômade e sedentário, aventureiro e rotineiro. Para descobrir mais sobre as dicotomias do homem e as obras gilbertianas é necessário compreender que o autor recifense sempre foi universal. Essa é a proposta do documentário inédito "Gilbertianas", que a TV Cultura exibirá dia 1.º, às 20h30. O vídeo também estará na mostra competitiva do 5.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, de 6 a 16 de abril, em São Paulo.
Dividido em dois episódios de 55 minutos - a segunda parte vai ao ar no dia 8 -, o documentário utiliza a análise da dimensão estética de Freyre para explicar a vida e a obra do antropólogo, escritor e sociólogo. Sob direção de Ricardo Miranda, que também criou o roteiro, em parceria com Raul Lody, "Gilbertianas" mostra que a sociedade analisada por Freyre com palavras é também retratada em seus quadros.
Essa tese é comprovada em uma das passagens mais curiosas da vida do escritor. É o próprio Freyre quem conta que se recusou a aprender a escrever até os 8 anos de idade. "Eu queria ser pintor e, até resolver aprender a ler e escrever, era um retardado para a família."
Para Miranda, o olhar estético do autor de "Casa Grande e Senzala" é fundamental para a compreensão de sua obra. Essa importância visual é retratada pelos inúmeros quadros e por depoimentos de amigos. "O entedimento de Freyre da formação patriarcal da sociedade brasileira é visual", diz.
Se a linguagem visual era importante para a vida do pensador, para a obra de Miranda não é diferente. Para compor o vídeo, o diretor teceu uma verdadeira trama entre a vida pessoal e profissional do escritor. "A metáfora da vida é enfocada nos detallhes do cotidiano", conta Miranda, que também fez essa opção em seu documentário "Câmara Cascudo - Um Provinciano Incurável". "Em Cascudo, a vida era representada pela rede de dormir; em "Gilbertianas", pelo engenho de açúcar", diz. "As engrenagens, presentes em todos os planos, encontram-se e formam a ligação entre homem e obra", explica o diretor.
Dois em um - É por esse motivo que fez questão de não dissociá-los em "Gilbertianas". "Os dois são uma só trama; é impossível entendê-los separadamente", afirma. "Muito do que viveu na infância, de sua formação escolar no Texas (EUA), por exemplo, foi fundamental para seu modo de pensar."
Esses aspectos da vida gilbertiana são revelados logo na abertura do vídeo, quando o pesquisador Edson Nery da Fonseca declama Evocação do Recife", poema de Manuel Bandeira.Além de Nery, imagens de manifestações populares são entremeadas por depoimentos inéditos de parentes, estudiosos e amigos do sociólogo recolhidas em um ano de pesquisas.
Além da "colonização negra do Brasil", outro aspecto que merece destaque em "Gilbertianas" são as anotações de Freyre sobre a culinária brasileira. "Um dos melhores testemunhos da cultura de um povo, a culinária, é a ligação do escritor com a infância", diz Miranda, que agora se prepara para filmar a vida de Sérgio Buarque de Hollanda e de Caio Prado.

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