Vídeo entra na era digital
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de outubro de 1998
Celso Mattos 
O futuro para o entretenimento doméstico chegou na forma de três letras: DVD. Quem ainda não sabe o que significa esta sigla, é bom ir se acostumando porque em breve ela vai fazer parte de nossas vidas. O Digital Video Disc (DVD) é a tecnologia mais cotada para substituir o videocassete, num processo semelhante ao que aconteceu com o CD que aposentou de vez o toca-disco. Um disco de DVD é do tamanho de um CD de áudio, porém é capaz de reunir informações de áudio e vídeo com altíssima qualidade.
Pequeno demais para um desempenho tão invejável. Esse superdisco tem capacidade para armazenar um filme de duas horas apenas de um lado. Enquanto o sistema VHS tem uma resolução de 240 linhas, o DVD arremata com 500 linhas. Isso sem falar que cada DVD suporta oito dublagens e legendas em 32 idiomas. Mas as vantagens não param por aí. Tem recurso de censura para os pais que não querem que os filhos vejam cenas proibidas, pode armazenar até nove ângulos diferentes para uma mesma cena, desde que o diretor do filme inclua esse recurso. Além disso, é possível optar entre assistir ao filme em tela cheia (televisão) ou na versão wide screen (tela de cinema).
Existem DVDs que trazem documentário sobre a realização do filme, videoclipe da música tema, comentários do diretor, making off e até cenas que não foram utilizadas na edição final. Para reproduzir essa maravilha, é preciso o equipamento DVD player, que já está sendo fabricado pelas grandes empresas de eletrônicos, prometendo ser o presente mais cobiçado deste Natal. Algumas lojas já dispõem de modelos para venda ao preço de R$ 800 a R$ 1.400. A exemplo do que aconteceu com o videocassete, esse valor deve diminuir com a popularização do aparelho.
Dorico da SilvaO DVD player já está sendo vendido nas lojas especializadasPara Carlos de Oliveira, proprietário da Áudio Vídeo Center, o DVD e o videocassete ainda vão caminhar juntos por uns cinco anos. Mas a tendência é a substituição definitiva. Acredito que já a partir do próximo ano haverá uma diminuição na fabricação e venda do videocassete. O DVD veio para ficar porque oferece muitas possibilidades e representa uma tecnologia de alto nível, garante. Para ele, o DVD só não está mais difundido no Brasil porque existem poucos filmes disponíveis. Enquanto os Estados Unidos já contam com cerca de 2.000 títulos, no Brasil eles não passam de 150. No entanto, isso também deve mudar a partir do ano que vem. As distribuidoras de vídeo estão prometendo fazer lançamentos simultâneos de VHS e DVD, acrescenta Carlos de Oliveira.
Mas além da pouca oferta de títulos, outro problema que vem atrapalhando a comercialização do DVD no Brasil é o zoneamento imposto pelos estúdios cinematográficos. Temendo a pirataria e a perda de controle sobre os direitos autorais, os estúdios optaram por dividir o mundo em seis zonas. Para cada uma, eles criaram uma codificação diferente - tanto para os aparelhos quanto para os discos - tornando-os incompatíveis para as demais zonas. O que não deixa de ser um contra-senso, numa época em que globalização é a palavra de ordem. O Brasil está na Zona 4, enquanto os Estados Unidos estão na Zona 1, juntamente com o Canadá (ver mapa). Há um interesse comercial por trás dessa divisão e quem acaba perdendo é o consumidor, diz Carlos de Oliveira.
Um dos motivos desse zoneamento é que muitos filmes que já estão sendo lançados em DVD nos Estados Unidos, sequer estrearam nos cinemas por aqui. Desta forma, um disco DVD comprado nos Estados Unidos ou Japão não roda num DVD player fabricado no Brasil. Mas ninguém precisa ficar desesperado. Esse problema está sendo contornado com um sistema chamado codefree, que nada mais é do que a decodificação do aparelho, equipando-o para rodar discos produzidos nas outras zonas.
ReproduçãoO mundo foi dividido em seis regiões. Um DVD produzido em uma delas é incompatível para as demais. Mas a conversão pode reverter esse mecanismo imposto pelos estúdiosO codefree pode ser feito tanto em aparelhos comprados no exterior quanto nos fabricados no Brasil. Carlos de Oliveira ressalta que isso não é ilegal. A lei só vale para os fabricantes, não para o consumidor. Depois de comprar o aparelho, a pessoa pode fazer o que quiser com ele, podendo convertê-lo para rodar DVDs de duas, três ou até das seis zonas, esclarece. O preço do codefree varia de R$ 80,00 a R$ 250,00 dependendo do player e de quantas zonas o consumidor deseja liberar para rodagem.
As locadoras também estão apostando nessa nova tecnologia. Em algumas delas, os DVDs já disputam espaço com as fitas em VHS. Odival Benedito de Matos, da Delta Vídeo, acredita na popularização do DVD. Muitas pessoas já estão procurando os discos para alugar e, a tendência é aumentar no próximo ano com o lançamento de mais títulos. Segundo Odival Benedito, o DVD promete também aquecer o faturamento das locadoras. Um disco DVD está custando R$ 25,00, enquanto que o VHS sai por R$ 65,00. A locadora precisa fazer, em média, 20 locações para pagar a fita, com o DVD isso cai pela metade, contabiliza. A preocupação de Odival Benedito é com relação à fragilidade do disco. O DVD é mais frágil que a fita VHS. Locadoras de São Paulo que estão trabalhando com o DVD há quase um ano, têm reclamado que ele estraga com mais facilidade, informa.
Quem já está desfrutando desta novíssima tecnologia não tem do que reclamar. O médico otorrinolaringologista Francisco Cóser comprou um DVD player há dois meses. É algo fantástico. Só não comprei antes por causa do zoneamento e da falta de títulos. A qualidade da imagem e do som é ótima. Não dá para comparar com o videocassete. No entanto, o médico diz que ainda mantém seu vídeo em casa. Por enquanto, não é possível aposentá-lo. Mas acredito que em breve o videocassete estará tão esquecido quanto o toca-disco, acredita.
Outra vantagem que Francisco Cóser destaca no DVD é a localização de cenas. No verso da capa do filme vem um menu com as melhores cenas do filme, para localizá-la basta discar no controle remoto o número que corresponde a cada uma. Acabou aquela coisa irritante de ficar apertando o rew e o fwd para localizar e rever a cena desejada, observa ele. O médico salienta ainda que para quem gosta de comprar filmes ou documentários para tê-los no acervo doméstico, o DVD além de ser mais barato, ocupa menos espaço que as fitas VHS. Por enquanto, a única desvantagem do DVD é que ele não grava. Mas, em pouco tempo, a tecnologia se encarregará de resolver esse pormenor.
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