Celso Mattos
De Londrina
Em ‘‘Orfeu’’, o cineasta Cacá Diegues lança um olhar apaixonado sobre o Rio de Janeiro, cidade que no filme representa o Brasil das contradições. Nunca o cinema filmou tão bem uma favela. A peça ‘‘Orfeu da Conceição’’, de Vinícius de Moraes, escrita nos anos 50, já havia sido adaptada para o cinema em 1959. Na época, a produção franco-italiana – que foi filmada no Brasil – acabou ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes.
Nas mãos do diretor Cacá Diegues ‘‘Orfeu’’ ganhou uma versão atualizada e moderna com o cantor Toni Garrido, vocalista do grupo Cidade Negra, no papel-título. O filme transporta para o Rio de Janeiro a tragédia mitológica entre Orfeu e Eurídice, mostrando o casal morando na favela Morro da Carioca. Patrícia França interpreta a bela musa que desperta uma grande paixão no coração de Orfeu, mas acaba sendo assassinada num confronto entre traficantes. Inconformado, Orfeu desafia a todos e desce ao inferno para tentar trazê-la de volta.
Com uma produção de arte estilizada, o filme não é apenas uma história de amor semelhante a ‘‘Romeu e Julieta’’, mas um manifesto contra a violência urbana. ‘‘Orfeu’’ é a cara do Brasil, um país dividido entre o belo e o trágico, o sagrado e o profano, o amor e o ódio. Em uma bela cena, o canto de Orfeu ecoa pela favela, é o grito melancólico e desesperado de um guerreiro brasileiro que não perdeu apenas sua amada, mas sua esperança. A morte de Eurídice é a morte de um sonho, mas como Orfeu, se preciso for devemos descer ao inferno para resgatá-lo.
A fotografia de Affonso Beato, que trabalhou com Pedro Almodóvar em ‘‘Carne Trêmula’’ e ‘‘A Flor do Meu Segredo’’, mostra o Rio de forma deslumbrante. Com tomadas a partir do Morro, a cidade se descortina para o telespectador iluminada e maravilhosa. Sem ousar na direção, Cacá Diegues conduziu o filme respeitando a obra de Vinícius de Moraes e demonstrando muita paixão pelo país onde vive. O ponto fraco de ‘‘Orfeu’’ fica por conta da interpretação capenga de Toni Garrido, que não consegue ser convicente no papel do mito Orfeu. Já o destaque fica para Stephan Nercessian, como o delegado Pacheco e para Murilo Benício, na pele do traficante Lucinho. Lançamento da Warner Home Vídeo. Duração: 111 minutos.

DivulgaçãoUm Beijo como ResgateStephen Dorff e Susan Sarandon: atuações que deixam a desejarÉ difícil entender por que uma atriz do porte de Susan Sarandon topou fazer um filme tão abaixo de seu talento. Será que ela estava precisando de dinheiro para pagar a hipoteca da casa? Com certeza, não, mas seria uma justificativa. Talvez a única. ‘‘Um Beijo como Resgate’’ repete a fórmula batida dos road-movies sem inovar em nada. Uma dona de casa entediada com sua vida medíocre resolve ir ao banco, sacar suas economias e ir embora. Mas enquanto está na fila, um assaltante entra, rouba o banco e a leva como refém. Durante a fuga, a cinquentona acaba se apaixonando pelo assaltante, que é um garotão de 20 e poucos anos.
Nos papéis centrais estão Susan Sarandon e Stephen Dorff em atuações insossas. Falta química entre o casal, a sensualidade passa longe e, para piorar, o final é extremamente moralista. ‘‘Um Beijo como Resgate’’ derruba por terra a afirmação de que atrizes como Meryl Streep e Susan Sarandon fazem qualquer filme valer a pena. Não acredite nisso e a prova está nessa produção. Lançamento da Warner Home Vídeo. Duração: 103 minutos.


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Filme é um dos melhores retratos sobre o mundo do rock
Ainda Muito Loucos
É bem provável que você nunca tenha ouvido falar do grupo de rock ‘‘Strange Fruit’’. Primeiro porque ele nunca foi tão famoso e segundo porque a banda, na verdade, nunca existiu. Trata-se de uma invenção criada para a comédia inglesa ‘‘Ainda Muito Loucos’’, dirigida por Brian Gibson. O filme narra a ascensão, a queda e a volta por cima do Strange Fruit vinte anos após sua dissolução. É um dos melhores retratos sobre o mundo do rock.
Longe de ser uma obra-prima, ‘‘Ainda Muito Loucos’’ é o tipo de filme que faz o telespectador apertar a tecla stop do videocassete com um sorriso nos lábios e acreditar que tudo na vida tem solução, mesmo que a cena final deixe você soluçando de emoção. É impossível não lembrar de ‘‘Ou Tudo ou Nada’’, outra comédia inglesa que tem praticamente o mesmo tema: a necessidade de dar a volta por cima. O mais bacana deste filme é o alto-astral que impera entre o elenco, que parece se divertir à beça com todos os clichês do rock. Além disso, mostra que idade não é problema quando o espírito se mantém jovem. Lançamento da Columbia. Duração: 95 minutos.

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