Vídeo (Celso Mattos)
Celso Mattos
O cineasta Martin Scorsese deixou temporariamente as violentas histórias de gângsteres e assassinos urbanos para mergulhar fundo na vida de um polêmico pregador da não-violência: o 14º Dalai-Lama, líder religioso e político do Tibet. O roteiro de Kundun - que significa oceano de sabedoria -, escrito por Melissa Marthison, que escreveu E.T. e é casada com Harrison Ford, chegou às mãos de Scorsese através de seu agente. O interesse do diretor pela história foi imediato. Ele viu em Kundun a oportunidade de trabalhar com um tema que sempre gostou: a religião.
Além de mudar completamente seu perfil cinematográfico, Scorsese teve que enfrentar outro desafio: trabalhar com atores amadores. Todos os 400 tibetanos que participaram do filme estavam ali na qualidade de representantes de seu país e em prol de uma causa.
Kundun narra a vida do Dalai-Lama, o líder espiritual tibetano dos dois anos de idade, quando o garoto que se acredita ser a reencarnação de Buda, é descoberto numa remota fazenda, até os 24 anos, quando seu país é forçado a se integrar à República Popular da China, em 1949.
Ao contrário de Sete Anos no Tibet, de Jean-Jacques Annaud, com Brad Pitt, Scorsese optou por fazer um filme sem nenhum astro hollywoodiano. Para o diretor, Kundun é uma experiência pessoal, regida pela emoção e contada rigorosamente sob o ponto de vista do homem que sempre esteve no centro dos acontecimentos - o Dalai-Lama.
O resultado é um filme belíssimo, mas muito contemplativo e completamente diferente de tudo o que o cineasta fez anteriormente. Primorosamente fotografado por Roger Deakins em locações em Ouarzazate, no Marrocos (a Índia não permitiu que a equipe filmasse em seu território), Kundun conta ainda com a emotiva trilha sonora de Philip Glass.
Indicado a quatro Oscar - melhor direção arte, fotografia, trilha sonora original e figurino, o filme é um delírio visual. Infelizmente, em vídeo muito dessa beleza será prejudicada. Se a maioria dos filmes de Scorsese trata de pessoas para quem a violência é um reflexo, em Kundun ele faz uma indagação sobre o reverso da questão.
Quem é mais forte, o sujeito que é violento ou aquele que tem a coragem de não sê-lo? Talvez, essa seja a razão que levou o realizador de obras como Bons Companheiros, Táxi Driver e A Última Tentação de Cristo a encampar um projeto tão diferente dos demais.
Sem astros e estrelas, sem tiros e explosões e sem uma estrutura linear, fica fácil entender por que o filme foi tão mal recebido pelo público. Sem falar que, no Brasil, Kundun foi pessimamente distribuído, sendo exibido apenas nas grandes capitais e, em curtíssima temporada. Mesmo sendo prejudicado em vídeo, vale a pena assisti-lo porque a fita é um hino, uma poesia esplendidamente fotografada. É um confronto entre o divino e o humano. Lançamento da Paris Filmes. Duração: 133 minutos.
Nova York Sitiada
é aula de OSPB
ReproduçãoDenzel Washington e Annette Bening tentam combater a ação dos terroristasNo final do ano passado, quando Nova York Sitiada foi lançado nos cinemas americanos, houve uma chiadeira geral. A comunidade árabe acusou o filme de racista e o diretor Ed Zwick, que fez Lendas da Paixão, de difundir estereótipos preconceituosos contra os mulçumanos. Muito barulho por nada. O filme, que acaba de chegar às locadoras, é idêntico a tantos outros thrillers de espionagem, repleto de clichês nacionalistas como heroísmo e bravura. Parece uma aula de OSPB, só que para americanos.
Denzel Washington interpreta um agente do FBI especializado no combate a terroristas. Depois que um chefão militar (Bruce Willis, tinha que ser ele) sequestra um líder religioso árabe acusado de liderar grupos terroristas, uma série de explosões e atentados começa a acontecer em Nova York.
Denzel e sua equipe entram em ação, com a ajuda de uma especialista em terrorismo, interpretada por Annette Bening, mas a coisa foge ao controle e Willis recebe ordem para ocupar militarmente a cidade. Os três personagens vivem um dilema: até que ponto a proteção dos cidadãos americanos entra em conflito com os seus direitos?
Na verdade, não era preciso tanta polêmica para um filme mediano, realizado por um diretor também mediano. Ed Zwich é mais um desses cineastas que o cinema americano tem aos montes. Faz um trabalho quadrado, onde tudo é impessoal e previsível. Mas não é a primeira vez que a comunidade árabe compra briga com Hollywood. Houve protestos na época do lançamento de True Lies e Momento Crítico, que mostravam árabes explodindo aviões e matando inocentes, mas como eram filmes muito ridículos, ninguém levou a sério.
No caso de Nova York Sitiada, a coisa foi diferente porque é um obra mais sofisticada e, por isso, mais eficiente na difusão de estereótipos. Lançamento da Abril Vídeo. Duração: 115 minutos.Em Kundun, Martin Scorsese dá um tempo à violência para retratar a vida do líder espiritual tibetano Dalai-Lama
DivulgaçãoRegido pela emoção, Kundun é sobretudo um delírio visual que pode ser prejudicado em vídeo





