Videntes e pianistas sem inspirações
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de agosto de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Gramado Especial para Folha 2 
Está com as malas de molho quem subiu a serra gaúcha imaginando encontrar a sucursal do círculo polar. Até o momento e as previsões, oficial e nativa, antecipam alguma mudança somente para o fim de semana o figurino exigido é para pouco mais de meia-estação. O que não retira, de modo algum, o charme permanente dessas paragens que até sábado ficam por conta do cinema latino-americano.
A maior novidade deste 28º Festival de Gramado demonstrou logo de cara bom senso. E, obviamente, racionalidade e funcionalidade. Há muitos anos encastelado no alto de um morro, onde funcionava nas dependências de um hotel, o quartel-general da mostra transferiu instalações de armas e bagagens para a sede de um clube social no centro da cidade, agora precisamente a 50 metros do Palácio dos Festivais. Segundo Esdras Rubin, coordenador do festival, a idéia foi aproximar o evento da comunidade, facilitando o acesso de convidados e do público. Outros espaços eleitos e aprovados foram a Rua Coberta e o Centro Municipal de Cultura, onde estão sendo realizados os debates.
Não muito animadora e extensa, a noite de abertura, com 230 minutos de imagens distribuídas entre três curtas e dois longas-metragens. Na primeira categoria, há sintomas evidentes de que a briga para a obtenção de recursos através de um emaranhado de leis de incentivo municipais, estaduais e federais e a preocupação com a limpeza técnica do produto final andam embotando a criatividade dos curta-metragistas. Ainda assim, vantagem dos brasileiros de duração reduzida sobre os estrangeiros de interminável metragem.
BMW Vermelho, de Reinaldo Pinheiro e Edu Ramos, tem como cenário uma favela na periferia de São Paulo. Um dos moradores ganha num sorteio um BMW zero, o que provoca mudanças no comportamento da família e nos moradores vizinhos. Há um excesso de caricatura no roteiro, o que acaba transformando o filme numa piada sem maior poder de reflexão sobre o fato social. A favela, apesar de existir de fato, chega à tela com aquele visual fake visto há algum tempo no Orfeu, de Cacá Diegues.
O melhor da programação de abertura foi uma animação de Arnaldo Galvão, Almas em Chamas. Durante incêndio, bombeiro casado salva uma mulher bela e sensual. Durante o salvamento, mulher incendeia o bombeiro, começando pela respiração boca a boca e culminando com uma cópula em brasa. A partir daí o casal vive romance inflamável e perigoso até a tragédia final. A explicitude do traço extremamente bem-feito coloca o filme nos limites da quase porno-animação. A história, a narrativa em off, a construção dos personagens, o desenho das situações tudo remete aos velhos catecismos, manuais de sacanagem de Carlos Zéfiro, importante fator de sociabilidade da adolescência pré-revolução sexual anos 60 e adjacências.
O pernambucano Conceição fechou o bloco inaugural de curtas. No Recife, prostitutas vivem o sonho do véu e grinalda, ajudadas por bandidos que fogem da prisão e por santa de devoção popular. O filme não é muito claro nos objetivos se crítica social, comédia escrachada de costumes ou homenagem semidocumental à cidade. Nada relevante, a caminho do esquecimento.
O diretor Pastor Vega é figura respeitada na cinematografia cubana. Veterano responsável por vários longas, todos de ampla aceitação popular, ele apresenta no currículo um feito capital: fundou o Festival de Cinema de Cuba, que dirigiu durante 12 anos. Mas há um outra particularidade sobre Vega: é o nepotista número um entre os cineastas da ilha. Seu longa mais recente, Las Profecias de Amanda, é exemplo de cinema familiar. Todos trabalham, na frente ou atrás das câmeeras. E estão todos aqui, na maior delegação estrangeira. O filme abriu Gramado 2000. Não é bom. Simpático às vezes, mas sempre dando voltas inúteis, por culpa de um roteiro desleixado. Culpa, no caso, do filho-roteirista, Aaron Vega.
O tema é interessante, baseado em personagem real. Mais precisamente na Amanda do título, desde criança uma mulher com dons proféticos, capaz de prever o futuro próximo ou distante das pessoas. Tão ou mais mística que o Brasil, Cuba apresenta ainda um fator complicador: a convivência da santeria, ou entidades da religião afro, com o socialismo
marxista. Esta convivência sui generis chega ao espectador sem consistência, caracteristicamente burocrática. O arejado dissidente Tomás Gutierrez-Aléa foi direto ao ponto em Guantanamera.
Pastor Vega ainda fuma charutos com Fidel. O elenco é o ponto forte do filme, com destaque para a mulher do diretor, Daisy Granados, e uma jovem e estonteante revelação caribenha, Laura Ramos, esquentando a temperatura aqui nos bastidores.
El Pianista é o primeiro representante espanhol quase inteiramente falado em catalão a participar de uma mostra latina em Gramado. Dirigido pelo estreante Mario Gas e baseado em novela de Manuel Vásquez Montalban, o filme ambiciona em demasia e colhe muito pouco. A idéia era levantar um painel sócio-cultural de 50 anos na vida de dois talentosos pianistas, amigos de infância que, na Paris vanguardista de 1936, tomam caminhos diversos a partir da conscientização política de um e da alienação de outro. De novo problemas sérios com um roteiro claudicante, quase infilmável, com um desenho de produção pobre, enfim, com uma produção semi-analfabeta.


