Dividir uma trama em fases é uma tática amplamente utilizada pelos autores de novelas. Quase sempre o motivo é o mesmo: a história só faz sentido e ganha ainda mais força se tiver um passado bem desenvolvido. Depois de alguns capítulos iniciais, os anos se passam e é possível identificar as motivações de cada personagem dentro da novela. Como é possível perceber em sagas familiares como "Velho Chico", produções biográficas como "JK" e novelas com forte carga história como "Cidadão Brasileiro". Neste processo, a escolha do elenco de cada período da obra é crucial. É preciso ter coerência durante a troca ou todo o trabalho pode soar inverossímil e se perder.
Atual novela das nove da Globo, "Velho Chico" apresentou duas fases complementares durante seu primeiro mês de exibição até chegar aos dias de hoje. O início da terceira fase causou certo estranhamento no público por conta da falta de sincronia entre as atuações. Em especial, a passagem de bastão de Rodrigo Santoro para Antonio Fagundes, intérpretes de Afrânio. "Acho que cabe no personagem uma mudança brusca. Ao virar coronel, ele vai dissipando boa parte da postura que tinha na juventude e se torna outra pessoa, menos sensível", defende Fagundes.
Acostumado a receber personagens de outros atores e adaptá-los para sua embocadura, Fagundes já teve de lidar com essa complexidade em novelas como "Renascer" e "O Rei do Gado". Agora, no entanto, o ator acredita que o público esteja mais atento a esses detalhes. Foi a mesma sensação que teve a direção e boa parte dos atores de "Em Família", novela de Manoel Carlos exibida em 2014. Por ser seu último trabalho em tramas de longa duração, o autor fez questão de fazer uma escalação de elenco totalmente afetiva, privilegiando nomes que se destacaram em outros folhetins de sua autoria. No entanto, diferenças físicas, como as de Bruna Marquezine e Julia Lemmertz, que se dividiram no papel de Helena, e um certo desleixo em relação à idade dos intérpretes, caso de Gabriel Braga Nunes, de 41 anos, ser o filho de Ana Beatriz Nogueira, que tem 46, incomodaram o público e comprometeram a credibilidade da obra. "Acho que o que importa mesmo é a idade que o ator caracterizado como o personagem aparenta no vídeo. É cada vez mais difícil escalar novelas com fases e ter atores do primeiro time. A saída é ir para testes e estreantes", argumenta o diretor Jayme Monjardim.
Dividir o mesmo personagem requer um intenso trabalho de parceria e observação. Na minissérie "JK", de 2006, Wagner Moura viveu o presidente Juscelino Kubitschek na adolescência e fase adulta até entregar o personagem a José Wilker. De olho no gestual e na fala de Wilker, Moura construiu o personagem de acordo com o que o colega também vinha pensando para sua parte na produção. Da mesma forma trabalharam Regina e Gabriela Duarte em "Chiquinha Gonzaga", de 1999. "Passávamos o texto juntas para encontrar um elo entre nossas atuações e fazer uma só Chiquinha. Mesmo a gente sendo mãe e filha e conhecendo o trabalho uma da outra, foi difícil", conta Gabriela, um dos grandes destaques da minissérie assinada por Lauro César Muniz.
Fã confesso de sagas e tramas recheadas de complexidades históricas, a primeira novela de Lauro César na Record foi uma prova de fogo para a equipe e o elenco da emissora. Em "Cidadão Brasileiro", de 2006, a Record teve de suar para conseguir contar a história ambientada entre os anos de 1955 e 2006. Em cena, o protagonista Antonio Maciel presenciava momentos históricos do país, como a construção de Brasília e a abertura política nos anos 1980. Um árduo trabalho de construção de Gabriel Braga Nunes, intérprete de Maciel. "Desde o início, eu já sabia que seria muito trabalhoso. O Maciel ficava entre o mocinho e o vilão e, apesar de manter uma certa essência, ele foi se modificando de acordo com os acontecimentos e passar das décadas. Era um trabalho de corpo, feições e boa maquiagem", analisa Gabriel. Dar vida ao mesmo personagem em fases distintas também surpreendeu Dalton Vigh em "Duas Caras". Na primeira fase, o picareta Marconi Ferraço era apenas um golpista. Depois, ele se humaniza e tem uma "virada" na trama. "O personagem foi se redesenhando, se humanizando. Foi bacana viver isso de um jeito muito natural e nada forçado. Eu lia os capítulos e ficava ansioso com o que estava por vir", elogia o ator.

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