Vidas contadas por imagens
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sexta-feira, 28 de abril de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local
Se no início do século passado fazer um retrato era praticamente um evento social, que não estava ao alcance de todos a qualquer momento pelo alto custo, com a popularização das máquinas e celulares, um registro está a apenas um clique do dedo. Porém, em tempos de milhões de selfies propagadas diariamente em redes sociais, fotografias no papel tornaram-se raridade. Em uma época não muito distante, era comum, inclusive, enviar essas fotos com descrições atrás aos familiares como uma recordação ou lembrança do evento. Hoje, as fotos ainda são enviadas, mas em formato digital. Uma coisa, no entanto, não mudou: a fotografia sempre permeou o imaginário social e eterniza a vida e a história das pessoas.
"Olha aqui como eu era bonitona; me chamavam de Marta Rocha. Eu tinha uma cinturinha. Os fotógrafos sempre convidavam para tirar foto de graça. Em troca, colocavam minha foto na vitrine para modelo", diz dona Alzira Hoffmann, revendo algumas de suas fotos de juventude. Dali em diante, as memórias não pararam de vir. Lembranças da mãe portuguesa brava, mas que cuidava com todo o esmero quando os filhos ficavam doentes; do pai que era um homem muito correto e bondoso; da abundância de frutas de todos os tipos no pomar; dos animais que cuidava no sítio e do touro bravo que pulava a cerca atrás das pessoas. "Bom mesmo eram os bailes que tinham no sítio. Sabe aqueles terreiros de café? Eram cobertos com pano de colheita para não entrar frio. Podia chover que a gente dançava lá dentro. É...nessa vida tudo passa."
Dona Alzira é uma das dezenas de pessoas que compõem o projeto "Clube da Fotografia", desenvolvido entre os anos de 2009 a 2011 no Colégio Estadual Roseli Piotto Roehrig, região norte de Londrina, pelo professor de Artes André Camargo. "Este projeto foi um desdobramento de um outro projeto de extensão que participava neste período, chamado Contação, do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que tinha o desafio de aproximar o discurso histórico praticado em sala de aula ao cotidiano social e cultural dos alunos, revelando a eles novos caminhos de descobrimento da história como sendo sua própria história. Foi um desafio e tanto, pois a fotografia é uma fonte historiográfica carregada de símbolos", explica.
Assim, os alunos começaram a coletar imagens antigas da família e da comunidade que resultaram em um acervo de história local e, ao mesmo tempo, na construção de uma identidade local. A pesquisa envolveu uma média de 50 famílias, cujas imagens foram digitalizadas. "Percebemos uma proximidade social e cultural que favoreceu a padronização dos conjuntos compositivos das imagens fotográficas, sobretudo pelo fato de grande parte dessas famílias apresentarem características semelhantes." A princípio, a pesquisa foi trabalhada em séries temáticas: batizado, casamento, aniversário e trabalho, além do recorte de datas (1950 a 1970). Estas fotografias foram analisadas e comparadas, além de associadas às narrativas de seus proprietários, mesmo que a partir de fragmentos de coleções.
Em seguida, houve uma análise sobre os modos como esses grupos sociais se fotografavam e se deixavam fotografar e, também, dos aspectos visuais das imagens de cada época. "Dependendo da década, as técnicas foram mudando: fotopintura, composição, estática, estilo da época, influência das revistas." E, ainda que não fossem o objeto primário de estudo, as memórias e relação afetiva com as fotos foram inevitáveis e ganharam peso. "Histórias, lembranças, segredos, curiosidades, portanto, vieram à tona a cada nova coleta de fotos, ainda que os proprietários não fossem os mesmos das fotos." Todas as imagens digitalizadas foram catalogadas e, em breve, algumas estarão em um livro a ser lançado pelo pesquisador que também pretende realizar uma exposição com as imagens.
Nelson de Souza, 81 anos, ao ver as fotos antigas, logo lembra da esposa, dona Líbia, companheira por mais de 57 anos, falecida há dois anos. "O dia do meu casamento foi muito bom; teve um grande jantar lá no terreiro de café no sítio e um bailão com gente da cidade toda. Dançamos a valsa dos noivos e o pessoal de mãos dadas ao redor. Que dia lindo." Era muito comum, à época, casais tirarem a foto com as roupas em dia diferente, mas a dele foi no mesmo dia da festa. "Me lembro que já estava escurecendo, foi o único registro desse dia. Quanta coisa vivemos depois disso; uma vida inteira ao lado dela. Combinamos desde a primeira conversa, lá no campo de futebol, e nunca mais nos separamos", emociona-se.