PONTO DE VISTA
Vidas comuns e ocorrências inusitadas
Um mergulho no insondável, no inexplicável. Em seu primeiro livro de ficção, a socióloga Maria Lucia Victor Barbosa oferece nove histórias insólitas em seu, apropriadamente chamado, ‘‘Contos da Meia-Noite’’. Afinal, é a hora do medo, da insônia, do inusitado. Uma hora que, conforme a própria autora adverte no início da obra, não se deve ler seu livro.
Dominando adequadamente a complexa arte de escrever, Maria Lucia Victor Barbosa mostra um lado novo ao público, mergulhando fundo em um universo próprio com leis diferentes das usuais, narrando fatos aparentemente simples mas, quase sempre, misturados ao sobrenatural. Emergem em sua obra personagens fortes, bem definidos, enfrentando como podem as agruras da vida e as dificuldades colocadas pelos acontecimentos. Há vidas comuns, repentinamente transformadas por ocorrências inusitadas, há dramas comuns, perpassando por momentos complicados, tudo formando uma teia curiosa que leva o leitor a um universo em que tudo pode (e muitas vezes é o que ocorre) acontecer.
Descrevendo bem, contando de modo curioso, Maria Lucia prende o leitor que se sente envolvido na trama de cada um dos contos e quer chegar ao final, curioso pela solução que lhe será ofertada. Sem compromissos com a realidade mas abraçando livremente o ficcional, a autora oferece surpresas e evidencia aquele dom de quem sabe contar uma história de modo a prender o leitor ou ouvinte.
Como porém não é fácil despreender-se de tudo o que se fez, Maria Lucia acaba revelando em alguns de seus personagens pessoas vivas, notadamente políticos, gente com aqueles vícios que fazem parte mesmo da vida comum deste Brasil. A ficcionista aparece e predomina, porém, no destino final daqueles que insistem em enganar a todos e que, de um ou de outro modo, acabam (como em ‘‘Buchada de Bode’’) presos a seus imensos fardos de demagogia e abuso.
‘‘Contos da Meia-Noite’’, a primeira incursão de Maria Lucia Victor Barbosa na ficção, revela um lado diferente da autora, que abre com suas histórias um leque diferente. Criando um universo onde possível e impossível se fundem, talvez revelando um desejo pessoal de ver pelo menos reveladas (e se possível punidas) as injustiças, a autora mostra, talvez sem perceber, o seu lado mais romântico.(E.F.)

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