Fernando Miragaya
TV Press
A persistente queda da audiência das novelas fez a Globo pensar outros formatos. A estréia que a emissora promove amanhã é o resultado desta reflexão. ‘‘Esplendor’’ é uma novela curta. Ao contrário dos 200 capítulos habituais dos folhetins, a nova novela das 18 horas está prevista para ter apenas 80. O formato mais compacto, batizado de ‘‘novela de verão’’, dá esperanças à emissora de que os ariscos telespectadores possam ser seduzidos por uma história mais dinâmica. Ao mesmo tempo, elenco, direção e os autores da novela comemoram o desgaste menor que terão com ‘‘Esplendor’’. ‘‘Vai ser uma história bem contada e divertida, para estimular o telespectador a assistir no dia seguinte. Isso está fazendo falta na tevê atualmente’’, acredita Ana Maria Moretzsohn, autora da novela.
A menor duração de ‘‘Esplendor’’ implica também em economia. Afinal, a novela vai ter um custo de R$ 45 mil por capítulo, 50% menor em relação às outras tramas globais. Nada espantoso quando se depara com os números: apesar de se passar no final dos anos 50, o que implicaria em custos maiores com pesquisa, cenografia, arte e figurino, ‘‘Esplendor’’ vai ter apenas quatro cenários fixos e 20 personagens. ‘‘Apesar do menor custo, vamos manter a qualidade. Estamos apenas experimentando’’, torce o diretor geral Wolf Maya.
O menor número de papéis acaba facilitando o processo de criação de uma única história carregada no romance e no mistério, que vai estar centrada no protagonista Frederico Berger. O personagem, interpretado por Floriano Peixoto, é um homem amargurado pela perda da esposa Elisa, papel de Ângela Figueiredo. Ela morreu em um acidente de avião pilotado pelo marido. Tudo muda quando surge Flávia Cristina, uma bela mulher interpretada por Letícia Spiller. Cheia de segredos e acusada de ter assassinado uma pessoa, ela chega à mansão de Frederico assumindo a identidade de Flávia Cristina, personagem de Christine Fernandes, uma mulher que ela conheceu e que entrou em coma após o acidente com o ônibus em que viajavam.
Mesmo com o menor número de núcleos, personagens e cenários, Ana Maria Moretzsohn ressalta as dificuldades do formato de ‘‘Esplendor’’. Para ela, a menor duração da novela exige uma história interessante e que seja contada rapidamente. ‘‘Não tem como, por exemplo, chegar em um determinado capítulo e dar uma descansada, enfatizando a história de um personagem de outro núcleo’’, argumenta a novelista. Ao mesmo tempo, porém, a autora corre menos riscos de ver sua novela criar a famigerada ‘‘barriga’’. ‘‘Também não se corre o risco de esquecer um personagem e se lamentar por ter um ator tão bom e não estar conseguindo colocar uma história interessante para ele’’, admite.
O ritmo mais dinâmico da novela já foi experimentado. ‘‘Esplendor’’ teve apenas 45 dias para ser produzida e ter 18 capítulos gravados. Na verdade, a novela que estava escalada para substituir ‘‘Força de um Desejo’’ era de Carlos Lombardi, mas a Globo viu no verão uma boa oportunidade para testar o novo formato. ‘‘A gente teve metade do tempo normal. Foi uma estratégia da emissora’’, explica o diretor Maurício Farias, destacando o trabalho de pesquisa desde a cenografia e a arte, com os antigos e charmosos carros da época, até o figurino. ‘‘Em produções de época temos de confeccionar quase tudo, mas contei com um acervo particular e com peças encontradas em brechós’’, valoriza Yurika Yamasaki, responsável pelo figurino e pela arte de ‘‘Esplendor’’.
Mas para prender o telespectador, ‘‘Esplendor’’ não pode contar apenas com a estética. Por esta razão, Ana Moretzsohn está arriscando o tom de mistério e suspense. ‘‘Só investi no gênero porque se trata de novela curta. Jamais ousaria em uma novela comprida, pois não há como segurar a história’’, explica a novelista, que também já se preveniu quanto a uma possível esticada em ‘‘Esplendor’’. ‘‘Não sou boba, sei que existe esta possibilidade e tenho trunfos para fazer mais 18 capítulos’’, avisa.
A história de Frederico, papel de Floriano Peixoto, um viúvo amargurado que trata os três filhos com mão de ferro e muda quando conhece a bela governanta Flávia Regina, interpretada por Letícia Spiller, traz logo na lembrança o filme ‘‘A Noviça Rebelde’’. Mas segundo a autora Ana Maria Moretzsohn, as coincidências com o clássico de Robert Wise param por aí. ‘‘No filme há uma mulher que vai lá para se doar. Na novela, a Flávia vai para se esconder’’, argumenta a novelista.
Ana Maria Moretzsohn prefere comparar o casal protagonista de ‘‘Esplendor’’ com o clássico ‘‘A Bela e a Fera’’. ‘‘É a Flávia, uma moça linda, que vem transformar uma fera sofrida, no caso Frederico’’, pondera a autora. Já para a troca de identidades, que ocorre quando Flávia Regina assume o lugar da verdadeira governanta Flávia Cristina – Christine Fernandes –, que entra em coma após um acidente, Ana Moretzsohn se inspirou em filmes como ‘‘Casei-me com um Morto’’, de Terence Fisher. ‘‘Peguei um pouquinho de cada coisa’’, reconhece.Nova novela da Globo mistura reconstituição de época e suspense em formato mais curto que o usual
Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasOs protagonistas de ‘‘Esplendor’’ enfrentam um ritmo alucinante: em 45 dias a novela foi produzida e 18 capítulos foram gravados