Vidas áridas
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de setembro de 2000
Francelino França De Londrina 
No filme Eu, Tu, Eles, três homens sertanejos seguiram as pegadas do amor de Darlene (Regina Casé), mulher rude, sexorientada, calejada pelas circunstâncias sociais e extremamente afetuosa como fêmea. Na aridez silenciosa da paisagem, Osias, Zezinho e Ciro (Lima Duarte, Stênio Garcia e Luiz Carlos Vasconcelos) desaguaram suas paixões num oásis sem medida. Esse quadrilátero amoroso (escrito por Elena Soárez) revela uma carpintaria primorosa na reconstrução do inconsciente coletivo do nordestino. Na tela, vê-se um universo catalizador e inesgotável nele mesmo.
Em Londrina, a professora Raimunda de Brito Batista analisou, a pedido da Folha2, alguns aspectos do universo nordestino apresentado por Andrucha Waddington. Nascida em Campina Grande (PB), há 28 anos no Paraná, Raimunda atua como professora da disciplina de Cultura Brasileira, na Universidade Estadual de Londrina. É um dado forte da cultura nordestina acolher as pessoas, observa.
As regras são explícitas: se o nordestino não gosta da visita, não coloca para dentro de casa. Se gosta, abre a casa e o coração. Osias acolhe Zezinho e Ciro, porque eles podem contribuir de alguma forma. Zezinho como mão-de-obra doméstica e o agregado mais jovem contribuindo com alimentos. Ciro, o estrangeiro, balançou afetivamente o relacionamento dos homens maduros.
Outro aspecto relevante abordado em Eu, Tu, Eles se refere ao poder exercido por Osias. Em função da aposentadoria, ganha importância de provedor, patriarca, com poder decisório nas mãos. Raimunda afirma que é cada vez mais crescente a formação familiar com agregados, principalmente se há alguém que vive de apusento, reproduzindo uma expressão regional.
Segundo a professora, a aridez de perspectivas de vida fez a mulher sertaneja independente, convivendo com um grau elevado de conformismo. Por isso, Darlene não se sente explorada, como bóia-fria e dona de casa. Resmungava, mas com resignação. Também ganha relevância no filme um ato sagrado para o nordestino: amparar a velhice. A tia de Zezinho recebe mimos até o último suspiro. Darlene seria destinada a fechar os olhos de Osias e Zezinho.
Um dos aspectos mais discutidos do filme se refere ao trânsito sexual de Darlene, sem grandes constrangimentos. A sexualidade entre as classes subalternas é mais bem resolvida, desgarrada de conflitos, em comparação à classe média, independente de ser Nordeste ou não. A população mais carente não possui o preconceito dos pequenos burgueses, constata. Isso não é regra, frisa Raimunda, mas quando acontece não gera conflitos, nem traumas.
O filme mostra Osias cumprindo um ato social de extremo significado. Ele registra as crianças, mesmo sendo geradas pelos outros. O registro civil é um ato mágico para o nordestino. Eu, Tu, Eles apresentou um final feliz, mas à moda serteneja. Se recorressem à fórmula hollywoodiana, Darlene fugiria romanticamente nos braços do homem mais jovem e bonito, para viver num horizonte perdido, esquecendo os velhos decadentes. Raimunda observou ainda que a forma convincente como foi retratado o sertanejo: silencioso, ensimesmado, triste, escorado na reflexão. Para o sertanejo, o divã é a rede.


