Vida simples, um sonho de férias
Não é todo mundo que se encanta com Jericoacoara. Tudo bem, Nelson Rodrigues já dizia ''toda unanimidade é burra''. Quem entende praia como lugar de mordomias à beira-mar pode esquecer esse cantinho do Ceará, a 290 quilômetros de Fortaleza. Ali o barato é outro. É ver o sol aparecer e esperar ele cair no mar. Observar o movimento da maré. Jogar conversa fora, tomar caipirinha sob os coqueiros. Namorar, caminhar pela areia. Ou seja, ver a vida passar e ser feliz assim.
Para ser capaz de curtir isso, no entanto, é preciso estar aberto. Evite sair do estresse da rotina diretamente para Jericoacoara. O ideal é descansar uns dias antes para não chegar lá na velocidade desenfreada do mundo urbano. Aí você estará prontinho para aproveitar o que o lugar tem de melhor: seu ritmo.
Lá pelas cinco da tarde, começa a romaria em direção ao topo da Duna do Pôr-do-Sol. Foi chamada assim bem de acordo com a simplicidade da vila. Para que complicar? Se o lugar é para ver o astro-rei se recolher, não poderia ter um nome diferente. E esse momento do dia é tão importante em Jeri que a única montanha de areia na praia virou ponto de encontro tradicional. Vão todos apreciar o espetáculo. O alaranjado pinta o céu e se transforma em púrpura ao som suave da capoeira, jogada lá embaixo. Um momento mágico, que ganhou ares de ritual, celebração da harmonia entre o homem e a natureza.
Nesta época, a atenção se transfere da duna para outro cartão-postal de Jericoacoara. O sol se põe dentro da Pedra Furada. Com meia hora ou uma de caminhada, dependendo do fôlego, chega-se lá. Há duas maneiras de fazer isso: pelo morro ou pela praia. O ideal é ir pelo alto e voltar por baixo, assim uma enorme subida fica fora do caminho.
Mesmo que não vá nesta época do ano, faça o passeio. Perto dos restaurantes da praia em Jeri, meninos com isopor se oferecem para mostrar o trajeto, aceite. Sobra sede com o calor do Nordeste, e aquela água-de-coco cai muito bem depois do exercício. Além disso, eles conhecem os buracos se a maré começar a subir durante a volta.
A paisagem que, na década de 80, levou um jornal americano a incluir Jeri entre as dez praias mais bonitas do mundo muda completamente durante o dia, acompanhando o vaivém da maré. Cheia, dá para arriscar um banho se agachando. Na vazante, a costa ganha uma larga faixa de areia, onde os barquinhos, que antes balançavam com o vento, ficam encalhados. O mar é tão raso que você terá de andar metros e metros para conseguir água no joelho.
Quem gosta de bons mergulhos deve aproveitar a Praia da Malhada, à direita do vilarejo, e a Lagoa de Jijoca. Ou melhor, as lagoas já que a mesma se divide em época de seca. Água azul ou verde? Depende do lado que escolhe. Os bugueiros de Jeri oferecem o passeio para os dois. Uma jardineira também faz o trajeto, só que os horários são fechados. Se puder pagar mais, vá de buggy. Avise que não tem pressa e quer decidir quanto tempo fica em cada lagoa.
O melhor é sair de manhã para Jijoca. Depois da aventura pelas dunas lembre-se de pedir para andar apenas nos lugares permitidos, isto é, fora do parque nacional , surge a água. Inacreditável a cor da Lagoa Azul, primeira parada. Com o sol, a cor clarinha vira transparente. Uma jangada pode ser alugada para uma voltinha. Fica bem na foto do álbum de viagem, mas o bom mesmo é beber uma cerveja gelada diante daquela maravilha.
Guarde o estômago para a Lagoa do Paraíso. Verdinha, ela é o ponto ideal para o almoço. Diversos restaurantes, geralmente nas pousadas em torno da lagoa, com espreguiçadeiras, servem pratos regionais. Leia-se muito camarão e lagosta. Redes à sombra esperam os comilões para a hora da sesta. Quem sente falta de programação num lugar desses?
Na volta, ainda dá tempo de pegar o pôr-do-sol do alto da duna em Jeri. Daí, um banho refrescante, crepe, reggae ou forró. A partir das duas da manhã começam a sair os pãezinhos recheados de queijo ou banana na Padaria Santo Antônio. Se, a essa altura, você já estiver zen, caminhando sob o luar com sua sandália de couro, pegou o espírito de Jericoacoara: apreciar as coisas simples da vida.





