Vida passa sem pressa em Sacramento
São João Batista do Glória, MG - Desemboque, distrito de Sacramento, é uma vila perdida no tempo. Cerca de 50 pessoas moram no local, cujas famílias, na maioria dos casos, estão lá há centenas de anos. Em meados do século 18 chegaram os primeiros bandeirantes à região, em busca de ouro. Ali se firmaram, e criaram um povoado, que se desenvolveu. Mas, com a escassez do metal, a vila - a aproximadamente 50 quilômetros de Sacramento, por estrada de terra - perdeu o interesse.
A Igreja de Nossa Senhora do Desterro, no centro de Desemboque, é reflexo dos tempos áureos. No altar, está cravada a data de 1762, quando acredita-se que ela tenha sido erguida. Hoje, permanece fechada boa parte do tempo. Missas? Só uma vez por mês.
Na frente dela - como era o costume antigo - está o cemitério da cidade. Ali estão enterrados os ascendentes de Lázaro Pinheiro, de 60 anos, que nasceu no pequeno povoado, assim como seu pai, avô, bisavô e tataravô. Alguns túmulos, como o do tataravô de Pinheiro - Francisco José Pinheiro, sepultado em 1893 -, estão melhor conservados. ''Tem gente que tem parente aqui e pede pra gente cuidar, de favor. Aí, a gente cuida'', diz. Mas a maior parte está mesmo abandonada.
Seu Lázaro está acostumado à vida pacata e raramente deixa o povoado. ''Não preciso sair, não. Aqui a gente planta o que come, tem milho, leite, faz queijo...'', explica. ''Morei 11 meses em Sacramento, mas, pra mim, foi como se fossem 11 anos.'' Um pouco antes da igreja há outra, bem parecida com a primeira, e menor. Duas igrejas em um povoado de 50 pessoas? ''Essa era só para os escravos'', explica seu Lázaro.
Desemboque faz parte do Circuito Turístico da Serra da Canastra. ''Esse lugar é muito especial. Queremos trabalhar para que essa história não se perca'', explica o secretário de Desenvolvimento Econômico de Araxá e presidente da Associação do Circuito da Canastra, Leandro Haddad.
Se for à Serra, programe-se para visitar o povoado, mas não espere almoçar no local: não há restaurantes, bares ou lojas. Apenas moradores simpáticos e muito acolhedores - curiosos em ver os forasteiros -, como Gerson Estevão, de 83 anos. Ele é uma exceção na vila: veio de fora e mora há ''apenas'' 50 anos no local. Foi pracinha na Segunda Guerra e, depois disso, quis sossego. ''Fiquei três anos e 20 dias na Itália'', conta. Ele garante que, diariamente, faz a mesma rotina de exercícios da época do Exército. ''Na minha idade, se eu parar, enferrujo.'' (A.M./AE)





