VIDA OU MORTE DA PELÍCULA?
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de janeiro de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina Especial para a Folha2 
Desde que o cinema surgiu, ainda no fim do século 19, sua longevidade sempre foi contestada. Os próprios inventores do cinematógrafo, os irmãos LumiSre, não acreditavam em sua viabilidade comercial: Cinema é uma arte sem futuro diziam.
Mais de um século se passou e a sétima arte se manteve capaz de incorporar todas as novas tecnologias que introduziram o som, as cores e os efeitos especiais ao universo cinematográfico até então restrito a 24 fotogramas por segundo.
Agora surge um novo dilema: o cinema digital, que há poucos anos era considerado um formato prematuro, infinitamente inferior à qualidade apresentada pela película, irá ou não tomar o lugar do cinema tradicional?
Desde a produção do primeiro Guerra nas Estrelas (1977), o cineasta americano George Lucas vem pesquisando novos meios que tornariam o cinema um processo mais barato, imediato e acessível. A criação da câmera VHS nos anos 70 foi um primeiro passo, mas ainda muito distante da qualidade que a película (filme em formato 8, 16, 35 ou 70mm) oferecia. O cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard até chegou a utilizar o vídeo no começo dos anos 80, mas logo abandonou a idéia pela qualidade ainda insuficiente de imagem.
Nos últimos anos, com a criação das primeiras DV-cams (câmeras de vídeo digitais), o sonho de Lucas quase se concretizou, fato que praticamente o convenceu da viabilidade da nova alternativa: Eu amo o filme, mas ele é uma invenção do século 19. O século do filme passou. Nós estamos na era do digital afirmou o cineasta ao jornal The New York Times.
Mas o que seria o cinema digital? Diferentemente do vídeo, que se constituía em processo analógico, as DV-cams utilizam sistema digitalizado, o que imprime uma qualidade de imagens infinitamente superior ao antigo VHS. Em vez dos 24 quadros por segundo, característicos da usual projeção analógica, as DV-cams trabalham a 30 quadros por segundo (essa diferença dificulta a transferência do teipe digital para o negativo de cinema).
As câmeras digitais em sua grande maioria trabalham no sistema NTSC, à exceção das câmeras produzidas em países europeus, que utilizam o sistema PAL, caracterizado pela operação a 25 quadros por segundo, apenas um quadro a mais que os filmes de exibição normal nos cinemas.
Outra singularidade do cinema digital é a necessidade de transpor as imagens captadas pelas DV-cams para película, processo denominado transfer to film. A necessidade decorre da inexistência de projetores específicos para o cinema digital.
Contudo, esses problemas começam a ser solucionados. Está previsto para que sejam construídas este ano nos EUA cerca de 120 salas voltadas ao cinema de arte equipadas exclusivamente para a projeção de filmes digitais. No Brasil, ainda não existe nenhuma sala especificamente equipada para a projeção de cinema digital, apenas para vídeo analógico.
Nos EUA, devido à rapidez dos avanços tecnológicos, já foi criado o Comitê Tecnológico da Cinematografia Digital. O órgão acompanha o aperfeiçoamento dos protótipos de projetores digitais criados pela Texas Instruments-JVC, pela Sony ou pela Kodak.
A dúvida em relação ao digital não se refere mais a sua qualidade de imagem, e sim, à possibilidade do novo suporte substituir definitivamente a película. Apesar de o negativo fotográfico ainda ser que melhor preserva a qualidade da imagem, na constituição do negativo há materiais cada dia mais raros, como a prata. Daí a necessidade da indústria audiovisual ter de encontrar um novo suporte permanente para a imagem.
O número razoável de cineastas que aderiram ao cinema digital recentemente não serviu para encerrar as polêmicas relacionadas ao novo formato. Em 1998, a produção dinarmaquesa Festa de Família teve um público nos EUA maior que A Vida é Bela, película que contava com grande esquema de marketing por trás. Em maio de 2000, Lars Von Trier recebeu a Palma de Ouro em Cannes por Dançando no Escuro, o que provocou grande polêmica entre a crítica internacional especializada.
No Brasil, as opiniões se dividem. O cineasta Carlos Reichenbach (Dois Córregos) irá utilizar câmeras digitais em seu próximo filme: Empédocles, o Deus das Sandálias de Bronze. Em entrevista exclusiva à Folha2, ele disse acreditar que o digital imprime um aspecto mais autoral aos filmes: O cinema digital já é uma realidade. Eu não o enxergo como uma saída, mas como uma nova linguagem, mais próxima do escrever (não da literatura), por exemplo. Pela facilidade na operação do trabalho, o cinema digital veio dar um novo fôlego ao cinema autoral. Reichenbach também observa que a leveza da câmera influencia a narrativa dos filmes digitais: Nos melhores filmes a que assisti, a câmera numérica (como os europeus a chamam) se transformam na esferográfica do realizador, numa extensão natural de sua forma de enxergar o mundo e as pessoas. Os melhores filmes digitais estão redescobrindo o ser humano: de Alain Cavalier (VIES) a Eduardo Coutinho (Santo Forte).
Sobre a possibilidade do digital substituir a película, o cineasta paranaense Paulo Munhoz acredita que o digital irá se sobrepor: Eu tenho certeza que ele vai substituir a película, prevê o vice-presidente da Associação de Vídeo e Cinema do Paraná (AVEC). Ele já dirigiu dois curtas com recursos do cinema digital: A Lenda da Arca de Noé e O Poeta, uma animação 3D (que cria maquetes digitais), além de fotografar o média-metragem Maia, dirigido por Guido Viaro. Munhoz não vê muitos problemas em se adaptar à nova tecnologia: Nós não estamos mais no século passado. A película vai acabar sendo superada.
O cineasta londrinense Caio Júlio Cesaro comprou recentemente uma câmera digital, mas não acredita que a película será substituída: Apesar de permitir produções com baixo custo, não tem a mesma qualidade. Acaba servindo mais para exercitar a linguagem. Já Carlos Reichenbach prevê que a película será abandonada em breve: Não sei se o digital, mas em algum momento outro material irá substituir o negativo. Paulo Munhoz, por sua vez, para resolver a questão chega a citar o fotógrafo Walter Carvalho, que trabalhou em Central do Brasil: O que determina a qualidade de um filme é o ser humano que está por trás da câmera.


