A "profissão mais antiga do mundo" é também bastante popular nas novelas. É comum prostitutas se tornarem foco da torcida de quem acompanha a teledramaturgia. Atualmente, Carlos Lombardi pretende abordar o comércio do sexo de alto escalão em "Pecado Mortal", através do papel de Mel Lisboa. Mas personagens com esse perfil de outras épocas continuam marcantes.
Mais de 13 anos depois da estreia de "Laços de Família", Capitu, garota de programa de luxo interpretada por Giovanna Antonelli na trama de Manoel Carlos, ainda é bastante lembrada. Assim como Bebel, vivida por Camila Pitanga em "Paraíso Tropical", de 2007.
Até quando a produção é exibida mais cedo, elas estão presentes com frequência. Como aconteceu em "Força de Um Desejo", de 1999. No folhetim, Ester Delamare, de Malu Mader, era uma prostituta discreta. "São pessoas, no geral, mais imaginadas do que conhecidas. A curiosidade do público gera essa atração por um mundo que não é acessível para a maior parte das pessoas", acredita Lombardi.
Mesmo que não sejam muito aceitas na sociedade brasileira, na ficção as garotas de programa costumam cair nas graças do público. Muito pelo romantismo com que esse universo é retratado na tela. E também pelas características de heroína que as personagens apresentam, já que, volta e meia, são mulheres batalhadoras e que se apaixonam verdadeiramente por um mocinho. "Há uma preocupação dos autores em humanizar a prostituta. Com isso, eles mostram que existe um outro lado na vida das garotas de programa. As pessoas percebem isso e 'perdoam'", acredita Leandro Assis, roteirista de "Uma Rua Sem Vergonha", série do Multishow que mostra a rotina de cinco prostitutas de Copacabana, bairro turístico do Rio de Janeiro também bastante conhecido por seu "mercado do sexo".
Mas, para alguns autores, não é a profissão que define a boa aceitação ou não de um personagem. E sim a construção de seu perfil psicológico. Geralmente, prostitutas são mulheres esforçadas, que sofrem injustiças dentro da trama e, às vezes, ainda carregam tons de comédia. "É por esse perfil que o público escolhe por quem torcer, quem amar, quem odiar. Se uma personagem prostituta não tiver bom caráter e se revelar vilã, duvido muito que o telespectador torça por ela", defende Silvio de Abreu.
Justamente por isso, Ricardo Linhares, autor de "Paraíso Tropical" ao lado de Gilberto Braga, imaginou que Bebel poderia ser odiada. Afinal, a personagem apresentava uma personalidade que flertava com a vilania: ela roubava, mentia e conseguiu separar o casal principal – Daniel e Paula, interpretados por Fábio Assunção e Alessandra Negrini – através de suas artimanhas. Porém, aconteceu o contrário. "Camila estava forte e deslumbrante. E Bebel era uma mulher que sabia o que queria da vida. Era esperta, 'safa' e tinha senso de humor. Tinha ambição e coragem. Isso estimula o público", avalia Linhares.
A repercussão de personagens garotas de programa costuma ser expressiva. Mesmo no ar em um canal fechado – HBO –, como uma das protagonistas de "O Negócio", Rafaela Mandelli tem sido constantemente abordada por pessoas que acompanham a produção. Recheada de cenas sensuais em que as atrizes deixam os seios à mostra, a série aborda o comércio do sexo de luxo. Para alavancar o "empreendimento", as três personagens principais – interpretadas por Juliana Schalch e Michelle Batista, além de Rafaela – aplicam estratégias de marketing para divulgar seus serviços e conquistar mais clientes.
E, por incrível que pareça, a atriz não percebe nenhuma diferença entre a resposta do público masculino e do feminino. "As personagens têm personalidades muito fortes e acho que intimidam os homens. Nunca tivemos um retorno com alguma gracinha ou falta de respeito", constata a atriz, que se prepara para a segunda temporada da produção.
Há também personagens que carregam, em seu currículo, uma "passagem" como garota de programa. Caso de Rosemere, papel de Malu Mader em "Sangue Bom". No passado, a personagem tentou ser prostituta, mas engravidou de seu primeiro cliente e acabou se tornando garçonete. Em "Amor à Vida", Edith, de Bárbara Paz, e Márcia, de Elizabeth Savalla já trabalharam como "mulheres da vida".
Por conta disso, Savalla precisou ter "jogo de cintura" com a repercussão negativa que esse detalhe da trajetória da personagem gerou com ex-chacretes. "A polêmica foi de que Márcia era dançarina e fazia programas, mas é um caso específico e ficcional, não pode ser encarado de forma tão literal", avalia a atriz. "O público ama a personagem, é uma das mais populares da minha carreira. A intenção era realmente fazer uma homenagem e um resgate da memória do Chacrinha com a Tetê", completa.

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