Francis morreu trabalhando. Não poderia ser diferente. O homem que entendia o ofício como o ato da reflexão extrema, morreu em sua toca em Nova York, recolhido ao próprio pensamento. Ninguém ainda sabe. Mas na manhã tipicamente nova iorquina, Francis, frio e impecável, talvez escrevesse suas impressões sobre balés ou planejasse, mais uma vez, combater as excrescências do País que amava, embora o considerasse bruto e burro. Ele era assim. Seu texto jornalístico, que toda a imprensa brasileira recebia religiosamente duas vezes por semana, transitava da delicadeza ao combate impiedoso do que considerava asneiras. Publicado nos principais jornais, era a marca do homem incorformado, do jornalista que não convivia pacificamente com o que considerava fútil.
Francis parecia assim. A cabeça pensante não compreendia o estranho gosto de seus conterrâneos pelas bobagens. Como podia um país consagrar-se ao chulo, à dança da garrafinha, aos faustões do domingo, cumprir toda a bestialidade impunemente? Ele não perdoava. E muitos não o perdoavam. Considerando arrogante, excessiva, perturbadora demais sua contribuição exigente. Ele queria que o Brasil melhorasse o nível. Nem que fosse para cobrar, esbravejar, atacar e atingir as mentes débeis, a cultura fragilizada que ele não debitava só a erros de governância. Para ele, o ser humano tinha o dever de procurar o impecável. O cidadão, a obrigação de forjar um país decente. Dizia-se homem de um outro tempo, achava-se fora de moda pelo excesso de informação e zelo. Sua melhor qualidade era não procurar agradar. Não fazia questão da unanimidade. Pelo contrário, deplorava o consagrado, ateava fogo ao modismo e saía-se orgulhoso, às vezes pela tangente.
Senhor da cultura ocidental que conhecia das vastas bibliotecas, museus e embates com gente importante, sentia-se deslocado dentro da multimídia da palavra fácil e das opiniões irresponsáveis. Assim, anacronicamente culto, parecia se esforçar para compreender o limiar do século 21. Não poucas vezes espicaçava os excessos do mundo eletrônico, criticava a inutilidade da informatização a qualquer preço. De que servem as máquinas, quando o homem não pensa?
Francis se apaga. Extingue-se, nesta semana, mais uma labareda da inteligência nacional. Não faz muito tempo, perdemos Mário Palmério, depois foi Tom Jobim, Antonio Callado, agora o homem que nos fazia pensar, rir ou espumar de raiva. A imprensa brasileira fica órfã. Nas redações, a espera de seus textos de quintas e domingos vai fazer falta aos editores de tocaia. Hoje literalmente perdemos o rebolado e guardamos seu conselho mordaz: ‘‘Intelectual não vai à praia. Intelectual bebe.’’ Vida longa a Paulo Francis. Vai ser difícil não beber por ele.

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