Vida e morte
...E assim é que também todos os homens são feitos do pó e da terra de que Adão foi formado. Todos vão para um só lugar, todos eles vieram a ser do pó e todos eles retornam ao pó... Os versos do livro de Eclesiaste servem de diretriz para o trabalho que a artista plástica londrinense Ângela Diana estará expondo a partir de hoje no Espaço Cultural Banestado, em Londrina. A abertura será às 20h30.
Paulo WolfgangAngela Diana e a escultura O Guardião feita em cimento celularA exposição reúne pinturas e esculturas onde a vida e morte se entrelaçam. Ao todo, Ângela Diana está mostrando nove quadros em técnica mista (pigmentos, acrílica, galhos naturais e folhas, flores e frutos artificiais) sobre duratex, e três esculturas em cimento celular, da sua mais recente produção. Em todos, a morte é uma constante. Nenhum, porém, é mórbido. Pelo contrário. Ângela apresenta a morte colorida pelos momentos vividos. O que me interessa é este tempo entre o nascer e o morrer - afirma.
Utilizando símbolos e signos próprios - na maioria, difíceis de traduzir por tão pessoais que são - a artista propõe uma reflexão estética sobre o prazer de viver. Ali, em trabalhos que aliam a terra roxa de Londrina a flores e frutos de plástico, faz um paralelo entre um dos paradoxos mais incompreensíveis para si própria: na região de solo mais fértil do mundo, insiste-se em usar plástico para representar formas da natureza. Usei objetos exteriores para mostrar que as pessoas estão sempre tentando driblar a morte e prolongar a vida, mesmo que um simulacro de vida. Ao usar flores de plástico, as pessoas tentam fazê-las durar, sem lembrar que a essência da flor não é esta - explica.
A esta proposta, Ângela alia também lendas árabes, mitologia romana e referências místicas para criar representações interessantes sobre poder de vida e morte. Isto pode ser percebido nas três esculturas: Israfil, o anjo da morte segundo uma lenda árabe; Guardião, o deus romano Janus de duas faces, guardião do dia e da noite e dos portões; e Sopro Vital, o começo e o fim da vida, na primeira inspiração e na última expiração mortal.
Para a artista, que cita o Eclesiaste (E eu vi que não há nada melhor do que o homem alegrar-se com seu trabalho, porque este é o seu quinhão na terra...) para ilustrar seu trabalho, o que importa não é o como nem o porquê da morte. E, sim, aproveitar o tempo do meio, entre o nascimento e o fim - afirma. Segundo ela, a morte não deveria ser fonte de temor. Toda nossa vida é feita de fases. E antes de começar uma nova, a velha tem de morrer. A gente está sempre morrendo um pouco e sempre renascendo - diz. Uma questão interessante, em trabalhos de personalidade.
Exposição de pinturas e esculturas de Ângela Diana - abertura hoje, às 20h30, no Espaço Cultural Banestado (Av. Bandeirantes, 500), em Londrina. A mostra pode ser visitada até o dia 30, de segunda a sexta-feira, das 9 às 18 horas.Paulo WolfgangLembra-te home que és pó e ao pó retornarás: outra tela da artista que explora o tema vida e morteTelma Elorza





