Castro volta a servir de cenário para o cinema. Na cidade, recentemente, foi rodado ‘‘Os Xeretas’’, com algumas estrelas nacionais. Na próxima sexta-feira, dia 6 de outubro, começa uma nova experiência: sob o comando do produtor e diretor André Sturm, serão rodadas as primeiras cenas de ‘‘Sonhos Tropicais’’, longa-metragem que enfocará a luta de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro de 100 anos atrás, para combater a febre amarela. O médico-sanitarista era discípulo de Pasteur.
A explosiva salada da estupidez e oportunismo aviltando-se contra a lucidez e o bom-senso infelizmente não é coisa do passado. Ela está presente em nossos dias, e foi esse um dos motivos que encorajaram Sturm a trabalhar nessa produção. O filme joga luzes sobre um determinado período da vida do cientista carioca, a partir de uma livre adaptação do romance de Moacyr Scliar.
Os roteiristas Fernando Bonassi e Victor Navas centralizaram a ação no início do século, logo após a tomada de posse do presidente da República Rodrigues Alves. A antiga capital federal, nessa época era assolada por epidemias como febre amarela, varíola, peste bubônica. A falta de higiene dos cortiços, com seus esgotos a céu aberto, ajudavam a tornar o quadro ainda mais assustador, proliferando as doenças.
Era preciso uma ação radical, e foi aí que se deu o estopim em 1904, com os populares revoltando-se contra o plano de saneamento e remodelação urbana, postos em prática por Cruz. Além da ordem expedida por ele para destruir os barracos, somou-se ainda a vacinação obrigatória, em todo o País, contra a varíola. O Rio de Janeiro virou praça de guerra. Esses tempos nervosos também estarão relatados no filme.
Para não virar somente numa aula de história do Brasil, a ação incluirá também a ficção, através da jovem Esther. Ela é judia e veio da Polônia com a promessa de se casar no Brasil e dar novo rumo à sua vida. Por maquinações do destino, no mesmo navio onde se encontra, está Oswaldo Cruz e sua família. Esta mulher será testemunha de importantes fatos e experimentará o amargor da prostituição. O casamento não acontece.
A nacionalidade da moça, que vai se envolver com o chefe de polícia e um malandro, formando assim um triângulo amoroso, foi intencional. Ela seria, sutilmente, mais uma das muitas polacas que se alojavam nos prostíbulos da cidade. Eram tantas que a palavra ‘‘polaca’’ se transformou para os cariocas em sinônimo de prostituta.
Depois de buscar no exterior artistas para viverem Ester – André Sturm contatou inicialmente Emmanuéle Beart e em seguida Sandrine Bonnaire, ambas do cinema francês – o diretor encontrou aqui mesmo a pessoa talhada para o papel. É a atriz Carolina Kasting, que até recentemente estava na tela da TV Globo vivendo Rosana em ‘‘Terra Nostra’’.
Oswaldo Cruz será defendido por Bruno Giordano. O elenco conta ainda com as presenças de Hugo Carvana, José Lewgoy, Chico Dias, Lu Grimaldi, Ingra Liberato, Cecil Thiré, Rogério Froes, Cláudio Mamberti e Lineu Dias, entre outros.
‘‘Sonhos Tropicais’’ transformará não somente Castro na antiga capital federal, mas também a Lapa, Antonina e Paranaguá, escolhidas pelas suas construções do início do século. As cenas finais serão rodadas no Rio de Janeiro. Exceto as mudanças externas das linhas arquitetônicas, e a evolução material e tecnológica, em sua essência o Brasil de então é praticamente o mesmo de hoje.
Há um desencanto geral da população com o governo do País, o mesmo descaso do poder, falta de perspectivas. A proximidade é tanta entre os idos de 1900 com 2000 que até as febres que acometem o povo estão aí, impassíveis. Mudou o nome: se antes era febre amarela, agora é dengue.

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