''O turista mochileiro é aquele que está sempre com a grana curta, suportando horas e horas dentro de um ônibus até chegar ao destino...'' Em boa parte dos casos isso não deixa de ser verdade, mas o problema é que a imagem enganosa desses viajantes, que preferem rotas alternativas e de acesso convencional limitado (leia-se via aérea), acaba inibindo e até cancelando ótimos programas que poderiam ser feitos durante as férias.
Para os mochileiros de carteirinha, viajar por estados e até países vizinhos é válido somente quando há integração com o dia a dia da comunidade local. Eles preferem chegar aos pontos turísticos por meios alternativos e organizar o próprio itinerário dos passeios, embora muitas vezes acabem solicitando a ajuda de guias ou agências de turismo. Não basta comprar um pacote de viagem, mas sim escolher pessoalmente hotéis, restaurantes e points noturnos. Engana-se ainda quem pensa que somente os ''duros'' fazem este tipo de aventura.
A maioria dos estrangeiros que percorre a América Latina pertence à famílias de boa renda, mas prefere conhecer os países viajando de ônibus, bicicleta e até mesmo como caroneiros. ''Estamos na estrada há quase um ano e sempre procuro me integrar à comunidade onde decido ficar uns dias. É assim que se faz uma boa viagem'', comenta o holandês Rob Van der Berg, 26 anos, enquanto tenta pegar carona em San Pedro de Atacama, norte do Chile, depois de passar um final de semana na cidade com a namorada Ellis Hupskes.
Eles contam que o dinheiro economizado com o uso de ''transportes terrestres'' é gasto em passeios pelo deserto, vales gelados e pelas praias do Pacífico. Assim também pensam as canadenses Amy Nagel e Jenny de Miranda. Naturais de Toronto, as duas amigas saíram de Salta, na Argentina, em direção às praias chilenas de Antofagasta. ''Como poderíamos ver as belas imagens dos Andes e do Deserto de Atacama viajando de avião?'', questionou Jenny, uma descendente de portugueses que imigraram para o Canadá.
É verdade que a integração entre agências de viagens e empresas aéreas melhorou a qualidade no atendimento e ainda reduziu consideravelmente os preços (vide comparações entre os pacotes para viagens nacionais oferecidos nos últimos dez anos, por exemplo). Mesmo porque a ''vida moderna'' não permite que muitas pessoas passem mais que uma semana fora de casa ou do trabalho. Ainda assim, viajar como mochileiro sai mais barato que usar aviões. Vale destacar ainda que o conforto também ''evoluiu'' entre os meios de transporte terrestres, que contam agora com carros-leito equipados com vídeo e que até oferecem comida de bordo.
Com o dinheiro gasto em uma passagem aérea (apenas de ida) para Santiago no Chile dá para realizar uma viagem de ida e volta ''costa a costa'', entre uma praia do Atlântico no Paraná, e as águas do Pacífico que banham várias cidades chilenas. ''O dinheiro que sobra pode ser usado durante a viagem, fazendo paradas estratégicas e conhecendo as cidades curiosas. Assim você evita permanecer muito tempo dentro dos ônibus'', comentou Peterson dos Santos Dias, editor gráfico de 23 anos, que usou dez dias das férias para viajar de Londrina a Iquique, cidade costeira que fica no extremo norte do Chile.
Outro fator interessante apontado (acredite) por psicólogos, é que viajar assim ajuda o jovem a desenvolver melhor o senso de organização, respeitar horários, controlar os gastos financeiros e principalmente aprender a conviver longe das ''regalias'' que encontram em casa. Mas quem já viajou como mochileiro alerta: é preciso colher bastante informações sobre a rota que se vai fazer, principalmente dos meios de locomoção (horários de ônibus e trens são imprescindíveis), além de selecionar pontos chaves para pernoitar. A sugestão é comprar mapas para avaliar as distâncias entre cidades e andar com uma calculadora para não se perder nos gastos.
No caso de viagem ao exterior, fique de olho nas conversões do câmbio e procure conhecer um pouco do idioma local, sem esquecer o velho dicionário. ''E nunca esqueçam de fazer um diário'' sugere Peterson ''porque sempre terá alguém interessado em buscar informações sobre a sua viagem. Custos de hospedagens e refeições, horários de ônibus, preço de ligações internacionais e até de um simples selo postal são anotações que parecerão bobas à primeira vista, mas acabarão ajudando outro aventureiro algum dia.''

mockup