Agência Estado
Era inevitável. A vida de Stanley Kubrick, o gênio recluso das telas, tinha mesmo de virar tema de um filme. A novidade é o nome do diretor: outra fera, o veterano Stanley Donen, autor de clássicos como ‘‘Cantando na Chuva’’ e ‘‘Sete Noivas para Sete Irmãos’’. Donen fez público seu projeto durante uma estadia em Roma, onde ganhou o título de ‘‘mestre do cinema’’, da revista ‘‘Filmcritica’’, da capital italiana. Donen que tem 75 anos, informou também seu parceiro no projeto: Frederic Raphael, que assina o roteiro do filme-testamento de Kubrick, ‘‘De Olhos Bem Fechados’’, adaptado de um romance de Arthur Schnitzler.
A intenção de Stanley Donen de homenagear seu compatriota é uma verdadeira surpresa. Donen é considerado uma espécie do Orson Welles do gênero musical, mas não se sabia que era dado a cinebiografias. Mais: seu material de partida é um livro escrito por Raphael depois da morte de Kubrick, ‘‘De Olhos Bem Abertos’’, no qual conta detalhes da colaboração entre os dois. A inconfidência (mais grave quando se trata de um monstro de discrição, como Kubrick) foi considerada de muito mau gosto pela família do cineasta morto. As surpresas não páram por aí: segundo Donen, Raphael, em pessoa, será chamado para interpretar ninguém menos senão Stanley Kubrick.
Donen e Raphael são íntimos. Já trabalharam juntos, como em ‘‘Um Caminho para Dois’’, estrelado por Audrey Hepburn. O difícil é saber no que dará essa homenagem a Kubrick feita a partir de uma obra tão parcial quanto ‘‘De Olhos Bem Abertos’’. Não que o livro não seja interessante. Longe disso. Mas como construir a cinebiografia de um gênio do cinema a partir de um texto que não passa de uma luta de egos entre um roteirista e o diretor que lhe encomendou um trabalho? Por exemplo, Raphael dedica dezenas de páginas ao comentário dos termos do contrato entre ele e Kubrick. O caso era complicado. Kubrick queria uma versão da ‘‘Traumnovelle’’, escrita na Viena da belle époque por Arthur Schnitzler. Sabia que o trabalho era difícil e por isso pedia exclusividade sobre o tempo do empregado.
Raphael não queria se escravizar e protestou. Havia uma cláusula que conferia a Kubrick poder para colocar ou não o nome do roteirista nos créditos do filme. Raphael não concordou - nesse caso com razão, embora o script seja co-escrito por Kubrick, que tinha, claro, a palavra final sobre o que seria filmado de fato. Mas o que havia por trás de tanta discussão era o seguinte: Raphael estava honrado por trabalhar com o mestre, mas, ao mesmo tempo, parecia lutar contra certo sentimento de inferioridade. Quem dava as ordens era o outro. E não apenas na condição de patrão, mas de um dos ícones verdadeiros e reconhecidos do cinema contemporâneo. Raphael queria afirmar sua posição. Mesmo porque não era um iniciante, nem um bocó. É romancista, ensaísta, crítico literário. Tem peso e luz própria.
Trabalhava a serviço de Kubrick, mas vingava-se dizendo que este podia ser genial como diretor de cinema, mas não tinha grande cultura literária e escrevia mal. Não é bem assim, como se depreende pela própria leitura de ‘‘De Olhos Bem Abertos’’. Houve uma discordância entre os dois em torno da interpretação da ‘‘Traumnovelle’’. Raphael a considerava muito ‘‘datada’’. No seu entendimento, as relações entre homens e mulheres haviam mudado muito desde a época de Schnitzler. Kubrick achava que tinham se alterado na aparência, mantendo-se na essência. Basta ler o romance, ou ver o filme, para verificar quem tinha razão. E assistir ao último trabalho de Kubrick significa constatar como um diretor genial é capaz de superar a leitura mesquinha de um original, feita por seu próprio roteirista.
Resta ver o que sairá, na tela, deste livro que não é uma homenagem, mas um acerto de contas. Póstumo, o que é pior.

mockup