Vida de figurante
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
O ônibus se desloca por alguns metros e para. Os passageiros descem. Um deles é preso. ''Corta'', diz o diretor. Volta todo mundo para dentro do ônibus. E começa tudo outra vez. Na cena do filme ''400 contra 1 - Uma História do Comando Vermelho'', que teve locações em Curitiba recentemente, o foco está no protagonista, interpretado por Daniel Oliveira. Mas além dele, uma série de outras pessoas ajudam a criar o contexto da história. Sem elas, os figurantes, o filme não aconteceria.
São pessoas como Dino Tavares, 35 anos, aluno do curso de interpretação, que faz figuração pela primeira vez. ''É incrível, uma chance de conhecer o set, saber como o filme é feito. Você imagina que em breve será você no papel principal'', revela o aspirante a ator.
Mesmo dividindo o set com gente famosa, o contato nem sempre é direto. ''Tem cenas que a gente nem vê o pessoal atuando. Fiz uma em que estava o tempo todo de costas'', conta. Mas quando está diante das lentes Tavares se dedica como se fosse a atração principal. ''Também rola aquele frio na barriga, aquela ansiedade. Você está ali dentro, mesmo que só apareça um braço, uma orelha''. Embora sua participação não seja de destaque, ele se diverte. ''Quando sair em DVD vou ter que ficar dando 'pause' para me achar: 'Olha a minha perna ali'. Vão ter que pedir autógrafo para a minha orelha'', brinca.
Boa parte das cenas acontecem no antigo presídio do Ahú, desativado em 2006. E muitos dos presos que o público verá na tela são detentos de verdade, que cumprem pena em regime semi-aberto na Colônia Penal Agrícola, em Piraquara. Profissionais que atuam no sistema prisional também foram convidados, como o agente penitenciário, Marcelo Leoncio, de 40 anos. Por seu desempenho, Leoncio conseguiu alcançar o que todo figurante deseja: ganhou do diretor um personagem, com direito a texto e nome próprio. ''Dei aula para os atores sobre a rotina do presídio e o diretor gostou'', conta o agente, que já foi figurante em filmes, documentários e clipes. Agora Leoncio virou Rojão. ''É um dos carcereiros mais bravos, bate bastante nos presos. Estou vivendo meus 15 minutos de fama'', admite. A única desvantagem é a caracterização do personagem. ''O diretor me fez cortar o cabelo e deixar esse bigodinho ridículo''.
Raramente a figuração é feita por atores profissionais, explica a agente da DM Models/GP7 Cinema & Atores, Aninha Bonfanti, que faz seleção de elenco para campanhas publicitárias e filmes. ''Em geral as produtoras acabam não reconhecendo esse profissional como ator, depois'', alerta a agente. Formada em Contabilidade, Aninha eventualmente atua como figurante. ''A gente faz muito mais por parceria do que por dinheiro. É um trabalho cansativo. Em um deles fiquei das oito da noite às oito da manhã, em pé''lembra.


