Vida de astro
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de outubro de 2015
Geraldo Bessa<br> TV Press 
Há quase três meses, Lázaro Ramos encara uma pesada rotina envolvendo dança, aulas de canto, gravações de videoclipes, shows e entrevistas. O cansaço transparece em seu rosto, assim como a satisfação de contar a história do excêntrico Brau, o astro pop que comanda as ações na série "Mister Brau". "Está muito puxado! Pois ainda tenho uma vida para cuidar. Mas aí fico imaginando que realmente existem pessoas que têm esse cotidiano do Brau. Todo meu respeito a elas", brinca.
Baiano com brilho nos olhos e alegria estampada, aos 36 anos, Lázaro celebra a autonomia e o prestígio que conquistou na televisão. "Cria" do Bando de Teatro do Olodum, a estreia na tevê foi em "Pastores da Noite", de 2002. Foi nessa mesma época que seu nome se tornou conhecido do público de cinema pelo burburinho causado por "Madame Satã", longa de Karim Aïnouz. De fora para dentro, o ator foi ficando cada vez mais requisitado por séries e novelas, onde enfileirou personagens de destaque em produções como "Sexo Frágil", "Cobras & Lagartos", "Duas Caras" e, sobretudo, "Lado a Lado". "Foi um trabalho muito lindo e coerente com a história do Brasil. De alguma forma, a força de 'Mister Brau' dialoga um pouco com os paradigmas quebrados pela novela. A visibilidade negra é sempre uma questão importante", analisa.
Nos últimos anos, você esteve ocupado com convites e participações em novelas. Voltar ao universo das séries era uma necessidade sua?
Necessidade, não. Mas era uma vontade. Eu e Taís somos muito fãs do roteiro do Jorge (Furtado). E há alguns anos que a gente planeja esse encontro na televisão. Só que, exatamente por conta dos projetos já acertados, faltava tempo para a gente se encontrar e discutir uma ideia legal. De nada adiantaria fazer qualquer coisa. Depois que terminou "Geração Brasil", curtimos a gravidez da Taís, a bebê nasceu e utilizamos essa folga profissional para trabalhar nesse projeto.
Você fala da série de forma muito autoral. Qual seu grau de participação no processo de criação?
O texto e as ideias principais são do Jorge, mas a gente trabalhou de forma extremamente coletiva. O legal da televisão é isso. Não se consegue fazer nada sozinho. Fui dando meus pitacos no personagem, tanto na elaboração como durante as gravações. Mas Jorge entendeu e desenvolveu bem o projeto. Estamos todos muito seguros dos passos da série. "Mister Brau" é exatamente o tipo de dramaturgia que me encanta.
Por quê?
A produção equilibra bom-humor e autoestima, o que eu julgo muito importante. A série tem afeto pelos seus personagens e um roteiro muito afinado. Não é à toa que o Jorge é um dos roteiristas mais premiados do país. Brau é um personagem muito orgulhoso de suas origens. Ele gosta de celebrar a vida e mantém os valores que adquiriu na sua origem. Acho que essa é uma mensagem muito importante e que reverbera no que a gente vive hoje no Brasil.
Músicos e jogadores de futebol que enriqueceram a partir do talento e apelo popular são uma referência?
Exato, mas não só esses casos. Tem uma galera que passou por isso recentemente. Ascendeu socialmente em profissões mais tradicionais também, tem seu dinheiro, mas a sua felicidade está na simplicidade. O Brau está nas ruas.
"Mister Brau" é ambientada no universo musical. Como você se preparou para a empreitada?
O flerte com a música é algo muito forte na minha carreira e eu sempre adorei esse tipo de trabalho. "Ó Paí Ó" é um bom exemplo disso. Mas aqui a coisa fica mais intensa. Por exemplo, eu sempre fiz aula de canto, o meu trabalho no Bando de Teatro do Olodum sempre teve uma forte referência rítmica. Mas há tempos que eu estava meio distante dos exercícios vocais. Então, dois meses antes do início das gravações tive de me dedicar de verdade. Brau não é só chegar e gravar.
Como assim?
A série exigiu um trabalho enorme de pré e pós-produção. Tive de gravar 17 músicas antes de pisar no cenário, essas canções tiveram de ter coreografias diferentes e muitas ganharam clipes, seja para a web ou para serem exibidos na série.
Ter de dançar, cantar e atuar em um mesmo trabalho aumenta a autocrítica e expectativa em relação ao seu desempenho?
Sim, mas tenho um compromisso com o "não enlouquecer". Tudo em "Mister Brau" está a serviço da teledramaturgia. Eu canto, mas tenho em mente que não sou cantor. Eu danço, mas não sou "o cara" da dança. Sei das minhas limitações e tudo é visto a partir da história. A direção e equipe de produção são tão boas que acho que, em cena, consigo convencer. Não tenho o compromisso de fazer um álbum de sucesso ou sair em turnê. Isso alivia a pressão. Minha pretensão é contar a história da melhor maneira possível.
Nas internas da Globo, a série é vista como um "case" experimental em relação ao plano multimídia de apresentação e divulgação ao público. Qual a diferença que isso faz no processo de trabalho?
Aumenta o trabalho (risos). No início desse projeto, a Globo fez uma reunião com a equipe de dramaturgia, comunicação e marketing. Na pauta, foi discutido que, com "Mister Brau", a emissora iria inaugurar uma outra relação entre os seus setores. A série ganha outra vida e passa a ser pensada não apenas para quando está sendo exibida. Existe todo um trabalho fora do ar, no site, nas redes sociais e intervalos da programação. É como se Brau existisse mesmo. E essa repercussão vem gerando histórias meio engraçadas.
Andam tratando ou chamando você de Brau nas ruas?
É mais curioso que isso. Fizemos a divulgação da série no "Domingão do Faustão". No dia seguinte, fui ao Parque Lage (famoso parque da Zona Sul do Rio de Janeiro) e um segurança me falou: "Seu Lázaro, vi um cantor ontem no Faustão que era a sua cara. O senhor tem irmão gêmeo?" (risos).
Atuar é a prioridade de Lázaro Ramos. Mas ele também gosta de se expressar artisticamente em outras frentes. Em 2005, estreou como diretor no especial "Retratos Brasileiros", do Canal Brasil. No filme e na série "Ó Paí Ó" , mostrou ao País que também poderia cantar. E mais recentemente, em 2010, a faceta escritor veio à tona com o lançamento do infantil "A Velha Sentada".
Grande parte desta personalidade múltipla do baiano é reflexo do seu trabalho no Bando de Teatro Olodum, onde fez de tudo um pouco. "Todo mundo nesse grupo acaba se aprimorando para a vida. E é para onde todo mundo volta. Eu estou doido pra desenvolver algum projeto com eles no futuro, agora como diretor", entrega.
Entre tantos trabalhos paralelos, "Espelho", programa que apresenta no Canal Brasil, tem atenção redobrada. Em sua décima temporada, o apresentador já recebeu convidados como Wagner Moura, Nelson Motta e Elke Maravilha, entre outros. Na pauta está sempre a subjetiva relação entre a arte e seu criador. "Tenho muita curiosidade sobre meus entrevistados. E aproveito o programa para mostrar as minhas opiniões. Sem a roupa de nenhum personagem, é onde sei que estou dando a minha cara a tapa", revela. (G.B.)
Em "Mister Brau", Lázaro volta a trabalhar ao lado de sua mulher, Taís Araújo. Juntos há 11 anos, o ator não enxerga qualquer desgaste na relação pelo fato de fazerem tudo juntos. "É bom que dá para conciliar as férias", brinca. Quando o assunto é a facilidade de não recorrer ao "beijo técnico", Lázaro é categórico ao afirmar que a sintonia em cena é das melhores, mas que o beijo precisa manter o clima profissional de outros trabalhos. "Beijo verdadeiro no vídeo fica meio estranho, muito molhado. O técnico fica com um resultado final mais bonito", ressalta. (G.B.)


