Arquivo FolhaMário Prata: escritor fez o percurso inverso do comum aos livros de regressãoPara algumas pessoas, acreditar em reencarnação não é uma tarefa fácil. Para uma pessoa que encara a vida com um olhar irônico, como o escritor Mario Prata, é ainda mais difícil. O interesse por esse tipo de crença só surgiu, conta o escritor, depois que percebeu que seu trabalho anterior, ‘‘Diário de um Magro’’, só perdia nas listas de mais vendidos para livros de espiritismo. Mario decidiu ler e analisar os campeões de venda. O deboche explícito, com o livro ‘‘Minhas Vidas Passadas (a Limpo)’’, lançado pela editora Moderna, era um caminho natural.
Autor de ‘‘Mas Será o Benedito?’ e ‘‘Schifaizfavoire’’ (Dicionário de Português), Mario Prata faz uma viagem desde a época de Cristo até os dias de hoje, em seis meses de sessões de terapia regressiva em ‘‘Minhas Vidas Passadas (a Limpo)’’ - 200 páginas/R$ 19. De posse de uma pesquisa realizada pela historiadora Ângela Marques da Costa, o escritor fez o percurso inverso do comum aos livros de regressão. Enquanto estes enfatizam os acontecimentos, sem descrevê-los, no livro Mario descreve as situações com riquezas de detalhes. Todas as supostas vidas passadas do autor são sustentadas por fatos, como os lugares descritos, o vestuário e os costumes.
Dizendo-se acompanhado do médico psicanalista e psiquiatra Leonardo Ramos, seguidor de Brian L. Weiss, renomado neurologista e psiquiatra inglês, Mario empresta credibilidade às supostas vidas passadas. Leonardo Ramos, na verdade, é a união dos nomes de dois amigos. As sessões teriam sido gravadas pelo médico e as fitas estariam no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Mario chegou a pedir que seu próprio psiquiatra, Jair de Jesus Mari, entrasse na brincadeira - este existe de verdade - e fizesse um texto endossando o trabalho do fictício colega Leonardo Ramos.
As vidas do escritor são mostradas em ordem cronológica. Algumas, no entanto, são descartadas - o autor alega só ter conseguido a visão da morte. Outras teriam exigido várias sessões de regressão para uma visão completa.
A primeira delas teria sido Ana de Betânia, a dona de uma taberna, irmã de Lázaro, ressuscitado por Jesus - segundo o autor, uma peça de marketing dos apóstolos. ‘‘Vamos ressuscitar seu irmão Lázaro. Depois entraremos com força máxima em Jerusalém’’, explicava Jesus a Ana. Nos relatos, Ana conta que a Santa Ceia não aconteceu como vemos nos quadros. Foi numa mesa-redonda e os apóstolos não estavam dispostos como num comercial de tevê, todos virados para frente. Os detalhes de cardápio da ceia e conversas entre os apóstolos também estão descritas no capítulo por Ana, conselheira de Jesus.
A segunda vida foi mais dolorosa. Gemma era a sofrida esposa do escritor italiano Dante Alighiere que teve nove filhos dele. Acabou abandonada por todos e suicidou-se. Depois, Mario conta que foi o tarado Frei Henriquinho. Capuchinho português do Século XVI, um dos primeiros a descobrir o Tropicalismo. Passando pelo índio Anhangá, que presenciou o Descobrimento do Brasil, e Georgette, a prostituta manca, amante e modelo do pintor francês Toulouse-Lautrec, no final do século passado.
Mas a maior dificuldade de Mario Prata teria sido aceitar o homossexual Johnny, que viveu no final do Século XIV e foi grande estilista da corte inglesa. A repulsa a essa vida foi expressa numa nota em que Mario se recusava a aceitar que já foi gay. ‘‘Mesmo que isto tenha ocorrido há cinco séculos e meio’’, ressalva na nota.
Ao término dos seis meses da terapia, Mario Prata afirma que percebeu uma semelhança em todas as suas vidas. Em cada uma delas aparecia um velho de cabelos e roupas brancas, que surgia do nada e sumia no espaço. Num sonho, Mario Prata teve a revelação, onde o velho dizia. ‘‘Eu sou a somatória de todos os que você já foi. Vocês talvez chamem isso de Deus’’. Mario Prata teve, então, a revelação de que ainda se seguiriam muitas outras vidas à atual.

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