Victor Hugo, a genialidade através do tempo
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sábado, 23 de fevereiro de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
A França comemora com champanhe nacional o bicentenário de nascimento de Victor Hugo, considerado o mais expressivo escritor francês do século 19. Nascido em 26 de fevereiro de 1802, o filho de um general de Napoleão deixou uma obra oceânica como poeta, romancista, dramaturgo e ensaísta. A influência de Victor Hugo recai sobre numerosos escritores ocidentais. Na França, poetas julgados como superiores ao próprio Hugo Baudelaire, Rimbaud, e Mallarmé se declararam admiradores dele. No Brasil, destaca-se Castro Alves entre seus principais seguidores. Ainda hoje, é apontado como um dos grandes escritores de todos os tempos, apesar de o gosto literário ter se modificado, sua fama sobrevive.
Victor Hugo viveu 83 anos intensamente. Conhecido pela personalidade extremamente egocêntrica e inteligência palpitante. Sua multiplicidade de interesses levou-o a atuar em outras áreas como desenhista, pintor, arquiteto, revolucionário e político. Victor Hugo ficou conhecido como porta-voz dos oprimidos e como oponente à pena de morte, tendo escrito até um romance sobre o assunto: O Último Dia de Um Condenado.
Aos 18 anos, recebeu de Luís XVIII um prêmio por um poema sobre o assassinato do duque de Berry, publicado no livro Odes e poesias diversas. Aos 23 anos, precocemente, foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra. Escreveu seu primeiro romance, Han dIslande, em 1823, mas obteve pouca repercussão. Com a peça A Batalha de Hernani, em 1830, conquistou imediatamente a popularidade entre os jovens e foi reconhecido como um dos formuladores teóricos do teatro romântico na França. O herói da peça, Hernani, um generoso fora da lei, luta contra a sociedade, sendo conduzido a um destino inexorável.
Em 1831, destacou-se com o romance O Corcunda de Notre Dame cujos personagens Quasímodo e a cigana Esmeralda cativaram gerações.
Mas sua mais importante obra romancista é, sem dúvida, Os Miseráveis, quando registra o desejo de mudança da sociedade. Como escritor e como político, transformou-se ao longo das décadas. Dedicou muitas obras poéticas à glória de Napoleão. No teatro, uma de suas peças mais conhecidas é Lucrécia Borgia. Após três tentativas malogradas, elegeu-se para a Academia Francesa em 1841.
Paralelamente, Hugo desenvolve intensa atividade política. Em 1848, torna-se favorável à república e combate o imperador Napoleão III. Passa 20 anos exilado, numa espécie de longa insônia. Nesse período, escrevia todas as manhãs 100 linhas de versos ou 20 páginas de prosa. Volta à França somente após a instalação da 3ª república, em 1870. Em 1876, como senador, defende a anistia aos comunards, embora não tenha aderia à Comuna de Paris.
A vida de político e escritor deram notoriedade a Victor Hugo. No setor particular, ele mergulhou em problemas intermináveis. A internação definitiva do irmão em uma instituição mental após um surto no dia de seu casamento com AdSle Foucher o angustiou toda a vida. Da união com sua amiga de infância mas de gênio incompatível com o do escritor nasceram quatro filhos.
Quando uma de suas filhas, Léopoldine, morreu acidentalmente afogada no rio Sena, sua produção literária ficou abalado de tal forma, que ficou interrompida por 10 anos. Na volta a carreira literária publicou Os Miseráveis, em 1862, um êxito que permanece até hoje, nas inúmeras versões teatrais e cinematográficas. Somente a filha AdSle sobreviveu a Victor Hugo. No papel de pai de AdSle tropeçou por não conseguir manter um bom relacionamento com a filha que se tornou esquizofrênica, após o retorno dos Estados Unidos, quando fugiu para casar-se.
Compulsivo sexualmente e voyeur, Hugo colecionou amantes, mantendo um casamento de aparências com AdSle Foucher. No entanto, a ligação amorosa com a atriz Juliette Drouet se manteve longeva durante cinco décadas, até a morte da atriz. Victor Hugo morreu em 22 de maio de 1885 coroado de glórias. Tornou-se herói nacional. Seu corpo foi exposto no Arco do Triunfo e sepultado no Panteão.
Uma das biografias mais completas de Victor Hugo leva a assinatura de Grahan Robb. Victor Hugo, no Brasil lançada pela Editora Record, humaniza o mito e revela as contradições existentes de um homem que vivia entre uma imensa energia criativa e uma sufocante desilusão consigo mesmo. Segundo o autor, Hugo foi o mais lúcido caso de loucura na literatura.
Graham Robb estudou nos Estados Unidos, na França e Inglaterra. Especialista em biografias, Robb escreveu biografias de Balzac (melhor livro de 1994 pelo New York Times) e Mallarmé (Prêmio pelo Independent Scholars em 1996). Com Victor Hugo, Graham Robb recebeu o prêmio Whitbread de melhor biografia.


