Victor Hugo
VICTOR HUGO
Nova York
exibe desenhos
que o escritor
Victor Hugo
escondeu
por anos
Tonica Chagas
Especial para a AE
Reprodução/Victor Hugo, de Bonnat
Victor Hugo: grande nome do romantismo francês dedicava-se ao
desenho e à pintura mas mantinha as obras longe do públicoO mundo inteiro, se não leu, pelo menos ouviu falar de duas grandes obras de Victor Hugo (1802-1885) ou foi pego por alguma versão delas: Os Miseráveis e O Corcunda de Notre Dame, que já virou até desenho animado. O escritor é reconhecido como o maior nome do romantismo francês. Mas o que a maioria desconhece e as enciclopédias malcitam é que ele também foi um grande desenhista. Por isso, uma das mais concorridas exposições atualmente em Nova York é Shadows of a Hand: The Drawings of Victor Hugo, que está sendo exibida até 13 de junho pelo Drawing Center, no Soho. Ali estão cerca de cem desenhos feitos pelo criador de Jean Valjean e Quasímodo, muitos deles produzidos justamente quando o escritor sofria períodos de recessão na sua veia literária.
Além de sua vasta produção de romances, poesias e peças teatrais, Victor Hugo produziu também milhares de desenhos. Na verdade, ele era um desenhista inveterado e desenhou obsessivamente durante toda sua vida. Mas, como escritor, não queria que essa outra manifestação artística competisse com sua literatura. Preferiu mantê-la longe do público, expondo-a só nas paredes de sua casa ou dando algumas obras de presente para amigos. Desenhos são essas coisas que me divertem entre dois versos, dizia.
No fim de sua vida, no entanto, talvez reconhecendo que todo aquele material tinha ao menos valor histórico, ele decidiu doar a maioria dos desenhos que tinha feito para a Biblioteca Nacional da França. Hoje são conhecidos cerca de 3 mil desses trabalhos.
Os desenhos já foram considerados por estudiosos como precursores do simbolismo e do surrealismo, mas só ganharam destaque nos últimos dez anos. Na França, na época do centenário da morte do escritor, em 1985, foram realizadas algumas exposições com eles. Mas fora do país essas obras raramente foram vistas. A exposição no Drawing Center é a primeira que traz para os Estados Unidos parte desse lado quase desconhecido de Victor Hugo.
Os desenhos vistos na mostra foram selecionados de coleções da Biblioteca Nacional da França, da Maison de Victor Hugo e do Museu do Louvre, em Paris, do Museu de Belas-Artes de Dijon, do Art Institute de Chicago e de coleções particulares na França, na Suíça e nos Estados Unidos.
O desenhista Victor Hugo experimentou várias formas e técnicas, usando materiais tão diferentes quanto tinta, café ou fuligem e trabalhando também em diferentes escalas (os quadros vão desde 5 cm x 7,5 cm a 48 cm x 60 cm). Os mais antigos dos seus desenhos conhecidos atualmente datam por volta de 1829. São basicamente caricaturas, estudos de arquitetura e topografia, representando paisagens em diferentes momentos do dia, feitos durante viagens. Desde então, ele demonstra uma grande fascinação pela luz.
A maioria dos desenhos vistos na exposição foi feita nos anos em que Victor Hugo viveu no exílio, provocado por sua crítica feroz, como deputado e pensador, ao autoritarismo de Napoleão III no Segundo Império.
Por uma questão de orgulho, mesmo com a anistia de 1859 o escritor continuou fora da França. Seu desterro durou 19 anos, entre 1851 e 1870, passados primeiro em Bruxelas e depois nas ilhas de Jersey e Guernsey, na Grã-Bretanha. Foi nas ilhas que ele escreveu Les Travailleurs de la Mer e completou Les Misérables.
O período do exílio é claramente lembrado num dos primeiros quadros vistos na sequência de mais de cem trazidos para a mostra. Paisagem com Castelo, de 1847, foi dado por Victor Hugo ao seu amigo Kesler em 1859 e tem três inscrições feitas e assinadas por seu autor. Na primeira, no centro da montagem, ele se refere aos castelos: Debout lun devant lautre ils semblent deux noirs géants prêtes à la lutte (De pé um diante do outro eles parecem dois negros gigantes prontos para a luta).
Na segunda, ele dedica o quadro a Kesler: A mon cher et courageux compagnon dexil, Kesler, un souvenir des soins affectueux pendant ma maladie (Ao meu caro e corajoso companheiro de exílio, Kesler, uma lembrança de seus cuidados afetuosos durante minha doença). Em 1870, Kesler deu o quadro a outro amigo, Le Ber, e então Victor Hugo acrescentou outra dedicatória no desenho: Javais donné ce dessin à mon vieux compagnon dexil Kesler; je suis charmé de le voir entre les mains de mon jeune et excellent ami M. Le Ber (Eu havia dado este desenho a meu velho companheiro de exílio Kesler; estou encantado de vê-lo nas mãos de meu jovem e excelente amigo M. Le Ber).
Sempre procurando alternativas nas formas de desenhar, Victor Hugo chegou à pliage (dobra). Nessa técnica, a tinta é aplicada num dos lados da folha de papel que depois é dobrada, criando uma composição simétrica. Coincidentemente, o uso da pliage para compor desenhos aumenta com o envolvimento do escritor e sua família em sessões espíritas. O interesse era entrar em contato com o espírito de sua filha Léopoldine, que morreu afogada, em 1843, num passeio de barco com o marido.
Mesmo depois de a fase espírita terminar, aquelas sessões continuaram influenciando os desenhos de Victor Hugo. De 1850 em diante, ele usa várias técnicas que provocam na imagem o efeito de ter ocorrido por acaso, mas retrabalha as formas que obtém com caneta e tinta, muitas vezes fazendo isso no verso da folha de papel.
Camadas de tinta preta, marrom e violeta marcam basicamente todos os desenhos dele. Uma de suas técnicas favoritas era o tachismo, desenvolvendo o desenho a partir de uma mancha (tache em francês). Outra era fazer impressões com renda embebida em tinta. As delicadas estruturas criadas dessa maneira sugerem nuvens, folhagens ou espuma do mar e foram usadas por ele em cartões de boas-festas, agradecimento ou tributo enviados aos amigos.
Entre 1864 e 1865, Victor Hugo escreveu seu grande romance baseado na vida cotidiana em Channel Islands, Les Travailleurs de la Mer, e juntou ao manuscrito 36 de seus desenhos. Na maioria, em vez de apenas ilustrar, o desenho acompanha o texto. O artista desenhou o local onde vivia naquela época como uma paisagem selvagem, açoitada por ventanias, como se estivesse representando nela seu mundo interior de exilado.
O catálogo da exposição no Drawing Center é a primeira grande publicação em inglês dedicada aos desenhos de Victor Hugo. Tem 160 páginas, cerca de 150 ilustrações e foi editado pela Merrel Holberton, editora inglesa. Pierre Georgel, diretor do Museu Nacional de Orangerie, em Paris, e a curadora do Departamento de Manuscritos da Biblioteca Nacional da França, Marie-Laure Prévost, estão agora preparando o Catalogue Raisonné des Dessins de Victor Hugo, que deve ser publicado em 2002. A obra vai reproduzir todas as belas imagens com as quais o escritor se divertia entre dois versos.





