VIANINHA REPAGINADO
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de janeiro de 2001
Francelino França De Londrina 
O dramaturgo, pensador da cultura e ativista político Oduvaldo Vianna Filho, em seus breves e fecundos 38 anos, viveu com intensa paixão momentos decisivos da história política e cultural brasileira. Produziu mais de 12 peças, com destaque para os clássicos Rasga Coração, Papa Highirte e Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, esta em parceria com Ferreira Gullar. O grande público conheceu seus diálogos precisos nos Casos Especiais e na comédia de costumes genuinamente brasileira A Grande Família, ambos exibidos pela TV Globo.
Rasga Coração foi finalizada em 1974, num leito do Hospital Silvestre, no Rio de Janeiro. O obstinado Vianinha ditou quase todo o segundo ato para um gravador. A mãe, Deocélia, datilografava esse testamento espiritual, para a posterior correção à mão. Ele interrompia a penosa tarefa ao receber medicamentos para aliviar as dores de um câncer já em metástase. Uma ponte de dois anos separa os dois primeiros atos da peça. Tempo e situações suficientes para transformar o segundo ato num jorro de emoção.
Em Rasga Coração, Vianinha constrói a saga política e existencial de três gerações de uma família. Custódio Manhães Jr, o Manguari Pistolão, 57 anos, funcionário público e militante do Partido Comunista. Esse herói popular anônimo, reexamina suas lutas em meio a uma série de problemas familiares e às mudanças culturais, comportamentais e políticas. Vianinha não condena nem exalta o duelo de gerações limita-se a levantar as razões de cada um. O título foi pinçado dos versos de Catulo da Paixão Cearense: se tu queres ver a imensidão do céu e mar/ refletindo a prismatização da luz solar/ Rasga o coração, vem te debruçar/sobre a vastidão do meu penar.
Imerecidamente, o universo ficcional de Vianinha permaneceu por muitos anos em verdadeiro estado de criogenia, à espera de montagens. O escritor e jornalista Dênis de Moraes fez, no final do ano passado, o relançamento da biografia de Vianinha, com nova roupagem. Providencial, Vianinha - cúmplice da paixão (Editora Record), chega numa temporada de redescoberta do autor. Nos últimos três anos, com a evidente agonia do besteirol e das comédias comerciais, surgem novas montagens de suas peças no eixo Rio-São Paulo.
Textos teatrais mais engajados, estimulantes da reflexão crítica, foram esquecidos nas prateleiras, enquanto a poeira grassa. Vianinha, cúmplice da paixão resgata a importância de Oduvaldo Vianna Filho nas artes e traça como pano de fundo um panorama histórico-cultural brasileiro, época em que os cidadãos pisavam em ovos.
Jogando o foco de luz sobre a pessoa, Dênis de Moraes mostra a visão otimista de Vianinha em encarar as dificuldades da carreira de autor e ator. Filho do teatrólogo Oduvaldo Viana, também cineasta e introdutor das novelas de rádio no Brasil, Vianinha começou no teatro, sem o aval paterno. O velho Vianna almejava um diploma na parede da sala do filho. Vianinha, segundo relato dos amigos, era serenidade por fora, alta voltagem por dentro. Namorador, teve casos com atrizes como Ítala Nandi, Maria Lúcia Dahl e Odete Lara, nomes de uma lista sem medidas.
Como ativista cultural, teve pariticipação fecunda na criação do Teatro de Arena (SP), do Centro Popular de Cultura (CPC) e do Grupo Opinião (RJ). No Arena, juntamente com Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e outros, instaurou uma forma de representação mais brasileira, dando visibilidade a uma concepção cênica mais despojada. No Arena, em 1955, funda o teatro de equipe, dando bônus de valorização ao autor nacional. Pela primeira vez, diante de um público extasiado, o homem do povo entra, senta, anda, fala, briga, declarou Vianinha. Vocaçãoes artísticas foram despertadas. Eles Não Usam Black Tie, de Guarnieri, foi uma peça impactante para toda uma geração.
No CPC, a militância se fez realmente prioritária e inadiável, num engajamento sobre a arte popular revolucionária. Vianinha foi o mais destacado teórico da necessidade de criar um nexo entre o artista da classe média, saído das universidades, e a cultura do povo, destacou o dramaturgo Paulo Pontes.
No Rio de Janeiro, ao lado de Paulo Pontes e Armando Costa, fundou o Grupo Opinião (nome tirado de uma canção de Zé Kéti) como uma extensão do CPC reunindo temas como desigualdade social e a defesa da cultura brasileira. Chamaram Augusto Boal para dirigir o arrebatador show Opinião, uma coletânea de textos em painéis dramáticos sobre a vida nacional, intercalados com música, reunindo na comissão de frente as vozes de Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale. O Opinião foi um verdadeiro divisor de águas, sacudindo a poeira da cultura em 1964. A temporada foi uma catarse, de superação do sentimento coletivo de impotência e frustração por conta do golpe. Só atuando politicamente a gente transforma o mundo, repetia. Como pensador, descobriu na prática a necessidade de horizontalização da cultura, priorizando um trabalho de continuidade.
Na televisão, Vianinha contribuiu para introduzir um conceito de dramaturgia brasileira. Um de seus maiores sucessos, A Grande Família, foi ao ar pela primeira vez em abril de 1973, trazia um elenco espetacular: Jorge Dória, Heloisa Mafalda, Osmar Prado, Luiz Armando Queiroz e Brandão Filho. A comédia de costumes deixou rastros na memória afetiva do brasileiro até hoje. Analisava nossa realidade oprimida através do humor. Com a crise autoral que a teledraturgia enfrenta, a Rede Globo vai lançar em breve o remake de A Grande Família, na época, retirada do ar com altos índices de audiência, porque maculava o padrão global. Deixou órfãos em toda uma geração de telespectadores.
Vianinha cúmplice da paixão, Dênis de Moraes, Editora Record, 420 páginas. R$ 42,00


