Parece que foi ontem. Antônio Fagundes não se esquece do tempo em que pegava carona no Fusquinha de Stênio Garcia até os estúdios da Globo, no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio. No trajeto, eles repassavam o texto e falavam de suas muitas afinidades. No seriado ''Carga Pesada'', exibido pela Globo de 1979 a 81, eles faziam uma releitura ''on the road'' de Dom Quixote e Sancho Pança, de Miguel de Cervantes: Fagundes era o mulherengo Pedro e Stênio, o responsável Bino. Depois, eles voltaram à cena como irmãos em ''Corpo a Corpo'', inimigos em ''O Dono do Mundo'' e patrão e empregado em ''O Rei do Gado''. ''O Stênio é um irmão para mim. É quase um casamento perfeito. Até porque não tem sexo'', brinca o ator, de 54 anos.
A partir de hoje, Fagundes, com uns quilinhos a mais e uma vasta cabeleira branca, volta a assumir a boléia do caminhão, ao lado do inseparável Stênio, hoje com 70, na nova fase do seriado. Depois de 22 anos, Pedro e Bino também continuam inseparáveis. Bino, mais ajuizado, abriu uma pequena empresa de transporte, enquanto Pedro, irresponsável como sempre, gastou tudo o que possuía com mulheres, bebidas e jogatinas. ''O Carga Pesada é maravilhoso porque fala do nosso povo, com uma linguagem brasileira. Por mim, ele nunca teria saído do ar. Fiz grandes personagens na tevê, mas o Pedro era especial'', garante o ator.
De fato, Fagundes se orgulha de já ter interpretado os mais variados tipos. Românticos, como o Cacá, de ''Dancin' Days'', maquiavélicos, como o Felipe Barreto, de ''O Dono do Mundo'', e engraçados, como o Caio, de ''Rainha da Sucata''. Mas nenhum outro reforçou tanto a imagem de galã viril e sedutor quanto o Pedro, de ''Carga Pesada''. Não por acaso, o ator não faz qualquer objeção ao projeto do seriado virar fixo na grade da Globo em 2004 e voltar a fazer sucesso por, quem sabe, mais dois ou três anos. ''Outro dia, fiz as contas e descobri que um protagonista decora o equivalente a duas Bíblias por novela. Já imaginou? É massacrante!'', desabafa, dando a entender que, por ele, não trocaria o volante de ''Carga Pesada'' por uma novela tão cedo.
Qual é a sensação de voltar a interpretar o Pedro depois de mais de 20 anos?
Pois é, eu e o Stênio costumamos brincar dizendo que o seriado nunca acabou. Ele pode ter acabado para o público. Para nós, não. Sempre que eu me encontrava com o Stênio, a gente conversava sobre o ''Carga Pesada''. O público ficou sem saber o que aconteceu com o Pedro e Bino nesses anos, mas eles continuaram na estrada. Se dependesse de nós, o seriado nunca teria saído do ar. Na época, não entendemos porque acabou. Afinal, ele fazia sucesso e os personagens eram muito carismáticos. Foi meio traumático, sabe? Felizmente, ele voltou. Levou 22 anos. Poderia ter levado mais tempo...
Mas o que mudou no Pedro? Ele continua tão brigão e mulherengo quanto antes?
O Pedro continua um apaixonado pela vida como sempre foi. Ele não casou, não teve filhos, não constituiu família como o Bino. Não tem para quem deixar nada. Por isso mesmo, vive a vida, com muito humor e prazer. Ao mesmo tempo, é um sujeito sanguíneo porque não controla as emoções. Ainda hoje, é capaz de sair dando porrada e beijando a mulherada com a mesma facilidade. O Pedro é sensível, louco e aventureiro. Ou seja: um contraponto extremamente rico ao personagem do Stênio, que é um autêntico pai de família. O Bino montou um escritório, comprou outros caminhões. Já o Pedro torrou tudo. Ele continua o mesmo...
Nos anos 70, o ''Carga Pesada'' tinha a preocupação de revelar à sociedade uma classe até então bastante marginalizada: a dos caminhoneiros. Qual seria a finalidade do seriado hoje em dia?
Olha, infelizmente, essa classe continua tão marginalizada quanto antes, apesar de ser responsável pelo transporte de 60% das mercadorias do país. Infelizmente, as estradas ainda estão sucateadas, sem segurança e as condições de trabalho continuam péssimas. A gente não pode esquecer que televisão é entretenimento. Só que a nossa televisão é tão bem-feita que a gente espera que ela eduque, informe, revolucione... Mas 'Carga Pesada' é um bom exemplo de produto que, além de entreter o público, ainda pode alertá-lo para determinados problemas sociais. Infelizmente, os problemas dos caminhoneiros são tantos que o seriado teria de durar uns oito anos para dar tempo de abordar todos eles.
O que você acha da idéia do seriado virar fixo na grade da Globo? A idéia lhe agrada?
A princípio, sim. Mas a Globo está sendo muito sábia ao nos deixar à vontade. Ela está programando a volta do seriado com bastante calma. Primeiro, gravamos quatro episódios. Depois, mais oito. Em seguida, a gente estuda se vai querer continuar ou não, se a Globo vai querer continuar ou não e, principalmente, se o público vai querer continuar ou não...
Aparentemente, você não se importa muito de trocar as novelas pelo seriado...
Olha, se não fosse esse massacre de ter 200 e tantos capítulos para decorar, eu faria uma novela atrás da outra. Mas, outro dia mesmo, fiz as contas e um protagonista decora uma média de 3 mil páginas por novela. Isso dá quase duas Bíblias. Pelos meus cálculos, são 300 páginas por fim de semana. E olha que eu tenho facilidade para decorar... Imagina os meus colegas que não têm. A vida deles deve ser um horror!

mockup