São Paulo - No primeiro domingo do ano 2000, o repórter Maurício Kubrusly deu início a uma verdadeira incursão pelo País, levando seus telespectadores para uma viagem de quatro minutos por diferentes Brasis. É o ''Me Leva Brasil'', um quadro do ''Fantástico'', da ''Rede Globo'', que acaba de ganhar uma versão escrita: ''Me Leva Brasil - A Fantástica Gente de Todos os Cantos do País'' (416 páginas). ''O livro conta muita coisa que não aconteceu na série. Histórias que não gravei'', revela Kubrusly.
Dos lugares mais inóspitos e distantes do luxo que ele conheceu, o repórter trouxe as lendas, os costumes e os personagens que tornaram sua ''garimpagem'' algo que parece irreal. ''Mas tudo o que tem ali é verdade. Tá gravado'', diz. ''A realidade do Brasil é muito maior que a ficção'', filosofa.
O programa nasceu para tirar o ''bode'' dos telespectadores que, ao ouvirem a música de abertura do ''Fantástico'', associavam-na com o término do fim de semana. ''O diretor do programa, Luiz Nascimento, queria algo alegre e eu sugeri abrir o programa com uma festa em algum canto do País'', conta Kubrusly, que rastreou os calendários de festas pelo Brasil.
O repórter coleciona histórias como a do homem que montou sua casa sem gastar um tostão, usando apenas material reciclado (para não dizer que foi revirando lixo) e como a da mudinha que conversou com ele às 4 horas num forró ou como a da cobra rateira que mama no peito da mulher enquanto ela está dormindo com o bebê ao lado...
Foram quase 150 cidades visitadas e mais de 400 mil quilômetros rodados o que corresponde a mais de dez voltas ao redor da Terra , contando o trecho aéreo e terrestre. A seguir, confira os melhores trechos da entrevista:
AGÊNCIA ESTADO - Por que lançar o livro só agora, depois de quase seis anos de programa no ar?
Maurício Kubrusly - No ano passado, o 'Fantástico' decidiu se expandir para não ficar só na TV. Daí, lançaram o livro 'A Fantástica Volta ao Mundo', do Zeca Camargo. Eu nunca pensei em escrever esse livro. Não tinha tempo durante as viagens. Era uma loucura. Trabalhávamos 14 horas por dia. Nunca me passou pela cabeça levar máquina fotográfica, muito menos laptop. A intenção era captar um laivo de verdade daquele povo.
AE - Ainda se lembrava das histórias?
Kubrusly - A primeira coisa que fiz foi assistir a tudo o que tinha ido ao ar. Eu olhava para a cara das pessoas e me lembrava de outras histórias que elas tinham me contado. Daí, tomava nota. São histórias inacreditáveis. Mas tudo o que tem ali é verdade.
AE - Em quanto tempo você escreveu o livro?
Kubrusly - Comecei em novembro e entreguei em março. Mas não me dediquei só ao livro, continuei trabalhando nesse meio tempo.
AE - Qual a história que lhe deixou mais emocionado?
Kubrusly - Foram muitas. Gravei várias com os olhos embaralhados. Em Araçaí, não consegui me conter. Conheci um coral que recolheu o canto das lavadeiras. Fiquei completamente tocado. Eles cantavam na igreja. Fui conhecê-los e perguntei se alguma lavadeira ainda morava por ali. Claro que agora elas usam máquina de lavar, mas fui conhecê-las e, conversando, sugeri que a gente fizesse uma gravação no rio. Elas levaram suas bacias e pedi que cantassem. Gravei de cima de uma ponte. A cena era linda. Pedi para elas acenarem. A tarde caindo... Só de lembrar, fico arrepiado. Aconteceram muitas dessas coisas.
AE - E qual foi a mais engraçada?
Kubrusly - Eu trabalho rindo. Sou debochado. O livro é 80% engraçado porque as pessoas são hilárias.
AE - Passou por algum apuro?
Kubrusly - Está no capítulo Prefeito Vingador. Não contei o nome do prefeito nem o da cidade. Preferi não me arriscar.
AE - Alguns programas foram gravados fora do Brasil, já que você estava trabalhando em outras coberturas. Qual a diferença de fazer esse tipo de programa no exterior?
Kubrusly - O olhar brasileiro no estrangeiro é mais curioso. Tudo é novidade. Qualquer coisa é inusitada para nós. Mas eu prefiro estar no Brasil. Disparado. Viva o Brasil!
AE - Conheceu muitas cidades com nomes estranhos?
Kubrusly - No primeiro ano fiz dois programas só com cidades com nomes esquisitos: Pangaré, Anta Gorda, Jacaré dos Homens...
AE - Como se sente quando volta dessas viagens?
Kubrusly - Sou um ex-carioca. Meus amigos odeiam ouvir isso. São Paulo é a cidade que mais gosto.
AE - Qual a dica para o turista incorporar o Kubrusly em suas viagens?
Kubrusly - Ir para longe das cidades grandes, embora elas também tenham muitas histórias.

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