São Paulo, 15 (AE) - Houve um tempo, no começo dos anos 70, em que Ken Russell era chamado de enfant terrible do cinema inglês. Ele envelheceu sem perder o gosto pela provocação, com seu estilo retumbante, cheio de metáforas visuais para expressar o conflito entre sexo e repressão e a tragédia de personagens cujos sonhos são destroçados no confronto com a realidade. Pode ser que a obra-prima de Russell continue sendo "Mulheres Apaixonadas", que ele adaptou do romance de D.H. Lawrence. Mas um de seus filmes mais representativos é "Viagens Alucinantes". Mal saiu em DVD, o filme já entrou na lista dos mais retirados. Está em sexto lugar, numa lista de dez.
Como sempre, o espectador pode escolher as legendas e acionar o índice de cenas, o que lhe permitirá chegar mais rapidamente aos momentos do filme que quiser rever. Há muitos assim em "Viagens Alucinantes". O filme mostra William Hurt como um cientista que serve de cobaia numa experiência planejada por ele mesmo (e que o faz regredir a estados primitivos). Nada mais russelliano, mas o curioso é que Russell não foi a primeira opção para dirigir o roteiro de Paddy Chayefski, que adaptou o livro de ficção científica de sua autoria escondido por trás do pseudônimo de Sidney Aaron.
O diretor original era o grande Arthur Penn, que, na época (o começo dos anos 80), já iniciara a curva descendente de sua carreira. Penn trabalhou no planejamento com Chayefski, o roteirista duplamente premiado com o Oscar (por "Marty", de Delbert Mann, e "Rede de Intrigas", de Sidney Lumet). Divergências inconciliáveis levaram Penn a desligar-se da produção, sendo substituído por Russell, que assumiu o projeto quando o ator já estava escolhido. Foi a estréia de Hurt, que depois virou um dos atores mais marcantes daquela década (estrelou Corpos Ardentes, de Laurence Kasdan, ganhou o Oscar por O Beijo da Mulher-Aranha, de Hector Babenco), mas hoje anda meio inativo na carreira.
Hurt mergulha com intensidade no personagem que vive no limiar da loucura. Está tão bem que o espectador é capaz de não acreditar que ele odiou fazer o filme e considerou o conturbado período de rodagem (18 meses) talvez a pior fase de sua vida. Intrigante, provocativo, o filme pode e deve ser visto como uma variação do tema de "O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson, sobre o homem que não consegue vencer seu instinto e sujeita-se a paixões primitivas. Serviço - "Viagens Alucinantes" (Altered States).EUA, 1980. Direção de Ken Russell, com William Hurt. Warner, 102 min

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