Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
É um álbum para se folhear primeiro e ler depois. ‘‘As Grandes Personagens da História do Cinema Brasileiro’’ - 1930-1959, de Eduardo Giffoni Flórido (Editora Fraiha, 182 págs., R$ 50), seduz primeiro pelas fotos e pela qualidade gráfica. São esses doces personagens de um período intermediário da indústria do filme no País que atraem o olhar do cinéfilo. Vemos lá um jovem dândi, Mário Peixoto, com sua elegância britânica, pronto a transformar-se num gênio da tela. Vemos Eliane Lage, musa da Vera Cruz, no auge de sua beleza clássica.
Mais os galãs Anselmo Duarte e Cyll Farney. A palavrosa Dercy Gonçalves, ainda jovenzinha, e Zezé Macedo, que se foi recentemente, em close tocante. Há o grande Nelson Pereira dos Santos em início de carreira, ao lado de diretores menos badalados, como Luiz de Barros, mais conhecido como Lulu de Barros. Sobra espaço para o exibidor Luiz Severiano Ribeiro Júnior e técnicos como os fotógrafos Edgard Brasil e Chick Fowle não são esquecidos.
Curta as fotos e vá depois ao texto, organizado sob a forma de verbetes. São ao todo 63 nomes, entre atores, atrizes, diretores, produtores, fotógrafos. Não há preocupação de precisão, nem na amostragem, muito menos na maneira como os artistas são tratados. Nota-se no autor mais o entusiasmo do fã que o rigor do especialista. Ele mesmo faz questão de frisar que o seu é um livro ‘‘biográfico-afetivo’’. Flórido conta que procurou trabalhar em registro duplo: um compromisso entre o dever adulto da objetividade e o prazer infantil de reencontrar personagens conhecidos nas salas de cinema. O resultado é uma história informal do cinema brasileiro no período que, se não pode ser usado como obra de referência, funciona muito bem como álbum da memória afetiva.
Mas ‘‘Grandes Personagens’’ não se resume a esse passeio pela memória do cinema do País. Como destaca no prefácio o pesquisador João Luiz Vieira, o livro é, também, testemunho de uma comovente arte da resistência. Como se sabe, o cinema brasileiro vive de ciclos que conhecem o apogeu, depois declinam e se desfazem. A cada vez, começa-se tudo de novo, do zero. Essa falta de continuidade é um dos fatores responsáveis - talvez o principal - por essa crise crônica - uma contradição em termos, mas que parece particularmente adequada quando o assunto é o cinema nacional.
Mas, se a consciência dessa crise permanente causa incômodo, também é motivo de orgulho. Como se a constante afirmação da vida diante da morte iminente fosse prova da vocação inegável do brasileiro para a arte das imagens em movimento. ‘‘Grandes Personagens’’ não fala dessa estratégia de sobrevivência em termos ensaísticos, sociológicos ou históricos. Deixa de lado o abstrato e fala do concreto, falando de e mostrando alguns dos personagens reais que fizeram essa história.
Está lá, com o devido destaque, a grande Cacilda Becker, atriz emblema do teatro brasileiro, mas de rápida incursão pelo cinema: apenas dois filmes, ‘‘Luz dos Meus Olhos’’ e ‘‘Floradas na Serra’’. Nenhum deles é obra-prima. Longe disso. No entanto, são registros de Cacilda ao vivo. Suas antológicas atuações no teatro permanecem apenas na recordação de quem teve o privilégio de assisti-las. O que fez no cinema continua lá, impresso no celulóide.
Há Carmem Santos, chamada de ‘‘a Grande Dama do Cinema Brasileiro’’, portuguesa de nascimento, brasileira até a medula, atriz, linda mulher, cineasta que fez filmes próprios, e trabalhou com monstros sagrados como Mário Peixoto e Humberto Mauro. Há Eliane Lage, ícone da Vera Cruz, atriz de singelos quatro longas-metragens: ‘‘Caiçara’’, ‘‘Ângela’’, ‘‘Sinhá Moça’’ e ‘‘Ravina’’. Hoje, em sua serena velhice, mora na cidade de Pirenópolis, em Goiás. O inesquecível Grande Otelo, ator de tantas comédias e chanchadas, como ‘‘É de Chuᒒ, que empresta a foto ao livro, mas também de papéis trágicos, ou tragicômicos, como o bandido bêbado de ‘‘Assalto ao Trem Pagador’’.
E, além deles, tantos outros como Abílio Pereira de Almeida, Adelaide Chiozzo, Carlos Manga, Dóris Monteiro, Eliana, Herbert Richers, João de Barro, José Lewgoy, Marisa Prado, Mazzaropi, Oscarito, Renata Fronzi, Sônia Mamede, Tônia Carrero. Alguns continuam vivos. A maioria já morreu. Foram protagonistas de um trecho de uma história que ainda não acabou.

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