São Paulo - Raramente se viu projeto de tanta pretensão. "A Viagem" reúne Lana e Andy Wachowski (da série "Matrix") e o alemão Tom Tykwer (de "Corra, Lola, Corra") para contar seis histórias passadas entre o século 19 e um futuro longínquo, com atores do porte de Tom Hanks, Halle Berry e Susan Sarandon, interpretando vários papéis cada um, ao longo de quase três horas de duração e uma estética que vai do futurista ao kitsch. Ufa!
Assim, vemos como um advogado de San Francisco defende um escravo numa viagem de navio de volta à casa em 1849. Assistimos a um compositor jovem tentando dar forma à sua obra-prima enquanto trabalha para um músico idoso e muito famoso. Nos anos 70, um jornalista tenta evitar um desastre industrial, enquanto em um 2150 apocalíptico uma criatura geneticamente modificada toma consciência do seu estado. E vai por aí. O todo, digamos, é unificado por um pastor de cabras que conta histórias em 2300, quando o mundo foi reconduzido a uma era pré-industrial, provavelmente por um cataclisma nuclear, ou algo que o valha.
O filme salta constantemente de um núcleo de história para outro. Isso, é provável, para obedecer a um desejo dos diretores, o de que o filme não seja visto como um amontoado de tramas, algo unificado. "É uma única história", garante Andy Wachowski. As partes fazem parte de um todo e um pequeno acontecimento num tempo pode redundar num grande efeito em outro tempo. O universo é um todo, diz o cineasta, com a mesma serenidade com a qual identificava ideias de Jean Baudrillard na origem da série "Matrix" (afirmação de pronto desmentida pelo filósofo).
O fato é que, do ponto de vista narrativo, as histórias não se casam e não conseguem estabelecer qualquer unidade mínima. Fica a impressão de um roteiro caótico, um ajuntamento de situações que aspira a alguma inteireza sem jamais chegar a concretizá-la. Em vão se procura no filme esse sentido de totalidade que lhe atribui o diretor. O conceito, ao que parece, ficou apenas no desejo dos realizadores sem jamais alcançar concretude na tela. É provável que eles possam dar maravilhosas entrevistas sobre as intenções ocultas do filme, mas o que se vê no cinema é uma decepção.
Não ajuda em nada também o visual kitsch predominante. A soma de ações entre os Wachowski e Tykwer não dá liga. Vez por outra lembramos do estilo "Matrix", mas são momentos raros. Predomina, aqui, uma estética new age, que casa com essa perspectiva holística (relativa à totalidade), no entanto muito mal resolvida. Mal pensado, o filme é muito mal realizado. É um daqueles casos em que o todo é bem inferior à soma das partes.
Tomado pelas suas histórias autônomas, "A Viagem" é muito fraco. Se quisermos considerá-las como um todo, como deseja um dos diretores, o projeto simplesmente naufraga e desaparece. Fica apenas a pretensão, sem qualquer base para sustentá-la.
Vale alguma coisa pelo tour de force de alguns atores, Tom Hanks em particular, que se desdobra para dar credibilidade aos seis (!) papéis em que está envolvido. No entanto, eles são de modo geral tão mal desenhados que o pobre ator, por melhor que seja, parece tão perdido quanto o próprio espectador nesse mar de histórias que não se encaixam nem dialogam.
Como mesmo em projetos fracassados é possível encontrar algo que se salve, o destaque é para Halle Berry, raro ponto de luz em meio à confusão geral.

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