O favorito virou zebra. Até dezembro do ano passado, ''Amor Sem Escalas'', do diretor Jason Reitman, era o filme mais cotado para fazer a limpa no Oscar 2010. Ganhou mais de 30 prêmios nos Estados Unidos e chegou ao Globo de Ouro com o maior número de indicações, seis. Mas não foi páreo para o fenômeno ''Avatar'', que levou os principais troféus na festa do último domingo e abriu seu caminho para a conquista das estatuetas douradas.
Radicalmente opostas à primeira vista, as duas produções têm em comum o fato de discutirem o processo de ''desumanização'' da sociedade. Enquanto ''Avatar'' bate na tecla ecológica, ''Amor Sem Escalas'' opta pela via dos relacionamentos pessoais. O alerta, no entanto, é parecido: a frieza e o pragmatismo do mundo moderno estão destruindo nossos últimos resquícios de sensibilidade.
Em cartaz a partir de hoje no Brasil, o terceiro longa de Jason Reitman confirma sua vocação para contar histórias que combinam doses iguais de drama e comédia. Foi assim em ''Obrigado por Fumar'' e ''Juno'', ainda que este novo trabalho penda mais para um tom melancólico. Aliás, não acredite no enganoso título brasileiro, mais apropriado para um romance água com açúcar (o nome original é ''Up in The Air'').
O personagem principal, presente em todas as cenas, é Ryan Bingham (George Clooney), cuja função profissional é única e exclusivamente demitir pessoas nestes tempos de recessão. Funcionário de uma companhia especializada em terceirizar processos de ''enxugamento'', Bingham viaja pelo país levando más notícias a milhares de trabalhadores. Nas poucas horas vagas, ministra palestras motivacionais em que propõe o desapego a qualquer coisa que sugira a permanência e o compromisso.
Ele mesmo não tem casa, família ou outra responsabilidade que não seja o trabalho. Sua única meta é acumular 10 milhões de milhas de uma famosa companhia aérea (o filme tem muito merchandising!), só para ganhar um cartão especial para passageiros VIP. Mas a chegada de duas mulheres vai mudar sua percepção da vida.
Primeiro, aparece Alex (Vera Farmiga, de ''Os Infiltrados''), uma executiva que é quase uma versão feminina de Bingham - e com quem ele vai se envolver amorosamente. Mais tarde, o personagem tem de conviver com a jovem colega de trabalho Natalie (a surpreendente Anna Kendrick, de ''Crepúsculo''), encarregada de implantar um processo ''revolucionário'' na empresa: a crudelíssima demissão por videoconferência.
A partir desses relacionamentos, Bingham começa a perceber o lado negativo de seu individualismo. E se angustia com receio de que seja tarde para mudar. O espectador também, e é isso que garante a atenção a um filme de ritmo um tanto lento para os padrões atuais. Nesse sentido, são merecidos os prêmios de melhor roteiro recebidos por Reitman e seu parceiro Sheldon Turner. A dupla já ganhou o Globo de Ouro na categoria e pode levar um Oscar de consolação - isso se ''Avatar'' for mesmo o grande vencedor da Academia.

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