Buscando encontrar uma maneira diferente de abordar de um grave drama familiar, o longa francês ''A Guerra Está Declarada'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - é um filme peculiar, que confunde expectativas e linguagens cinematográficas.
Aclamado pela crítica na edição de Cannes deste ano como um retrato fiel do novo cinema francês - que tem a tendência de trabalhar em uma ''realidade aumentada'', misturando fantasia com uma narrativa densa - o longa começa quando a personagem Juliette (Valérie Donzelli, que também é a diretora do filme) leva o seu filho, Adam, para uma série de exames médicos. Em um flashback causado pelo barulho da máquina de ressonância magnética, conhecemos a sequência de fatos que levaram a protagonista até aquele momento.
Era uma vez... Em uma festa, Juliette conhece Roméo (Jérémie Elka‹m), e o nome do casal já serve como o prenúncio da tragédia que está para acontecer. Eles se apaixonam imediatamente, e depois de uma rápida sequência musicada (como qualquer bom casal indie, eles andam de bicicleta, pulam de mãos dadas, comem algodão doce, caem no chão, et cetera) logo nasce o pequeno Adam.
Alguma coisa, evidentemente, está errada com o garoto. Desde bebê, ele chora sem parar. O tempo passa, a choradeira acaba, mas Adam ainda não consegue andar e tem enjoos frequentes. Depois de algumas consultas com uma pediatra, o diagnóstico começa a ficar mais preocupante - ele tem uma assimetria facial, e é enviado para o neurologista. Lá, uma triste notícia muda a vida do casal e de todos os seus conhecidos: Adam tem um tumor cerebral, e terá que travar uma batalha prematura contra a morte.
Com muitos ingredientes autobiográficos (Donzelli e Elka‹m tiveram um filho doente chamado Adam, que faz uma ponta no filme) a narrativa lentamente desmorona dentro de seu próprio labirinto de realidade/ficção. Abusando de planos de câmera desnecessários, takes absurdos e narrativas em 'off' didáticas ao extremo - em um momento especialmente redundante, a protagonista está prestes a dar uma notícia grave, e a voz anônima afirma ''Juliette tinha uma notícia importante para dar, e todos olharam para ela'', em uma descrição que seria útil apenas ao espectador cego.
Enquanto a fotografia saturada e os exageros estéticos podem ser justificáveis - porque carregam o objetivo claro de amenizar o peso do filme - um erro imperdoável está no exagero no uso da trilha sonora. Como um longo videoclipe, a história do longa fica enterrada debaixo de uma overdose de músicas bonitinhas, eletrônicas e/ou releituras de músicas clássicas tristes, fruto do trabalho produzido por Yuksek, DJ e produtor francês. Assim, ao invés da trilha servir como pontuação dramática, o excesso musical esvazia a narrativa, causando intervenções bizarras: com uma batida eletrônica, Juliette corre no hospital; com uma pegada low-fi, o casal se abraça em câmera lenta na praia; com guitarrinhas distorcidas, uma montanha-russa brilha na noite; no meio da descoberta da doença, Rómeu e Juliette cantam, juntos, uma música de amor. E assim por diante.
Os melhores momentos do filme estão no silêncio, em cenas que conseguem - com simplicidade - escapar à visão 'diferenciada' que Donzelli tenta impor durante a narrativa. Com uma atuação firme e convincente, o casal protagonista retrata, através de gestos e olhares, como a tragédia afetou o relacionamento amoroso e a vida pessoal de ambos. Duas das melhores cenas são as que acontecem dentro do consultório do neurologista. Sem efeitos, sem música, ali está um drama que vale a pena assistir, e que transcende as falhas na montagem do longa.
Perdido em algum lugar entre ''Amelié Poulain'', ''Invasões Bárbaras'' e um videoclipe de Paris Combo, é estranho perceber como um filme que se preocupa tanto com seu ambiente sonoro possa desafinar repetidas vezes. Sem nunca encontrar um ritmo adequado, a narrativa de ''A Guerra Está Declarada'' tem tons de drama, comédia, musical e novela, e se perde dentro de um emaranhado de situações. No saldo final, o filme tem algumas boas notas, mas que não compõem uma melodia emocionante o suficiente - isso não é ''realidade aumentada'', é realidade enlatada dentro de um longo exercício estético.

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