Viagem através do século
VIAGEM ATRAVÉS DO
SÉCULO
Terceiro volume de História da Vida Privada no Brasil mostra a miséria do país e o impacto das novas tecnologias
Xico Sá
Agência Folha
Quase cem anos depois, o Brasil mantém semelhanças com cenário do início do século: a miséria das doenças e o encanto do admirável mundo das novas tecnologias. Com o apego machadiano às revelações das coisas miúdas, a História da Vida Privada no Brasil alcança seu terceiro volume e nos permite colocar frente a frente dois mosquitos. O da febre amarela, um dos agentes provocadores da chamada Revolta da Vacina, em 1904, e da atualíssima dengue.
No início do século, os moradores dos morros, em situação de decadência e sob a agonia da varíola e febre amarela, entre outros males, resistiram à vacina. No momento, o mosquito da dengue provoca uma situação inusitada. Além de atacar os habitantes de morros e mangues, chegou à classe média e picou também o alto escalão da República, como o caso do senador José Sarney (PMDB-AP), vítima da doença.
O terceiro volume da história da privacidade brasileira, que está sendo lançado na 15ª Bienal Internacional do Livro, é organizado pelo historiador Nicolau Sevcenko e abarca a República: da Belle Époque à Era do Rádio. O próprio Sevcenko escreve o capítulo A Capital Irradiante: Técnica, Ritmos e Ritos do Rio. O texto traz o impacto das novas tecnologias (do fascínio com os eletrodomésticos, o telefone etc), com a mudança de comportamento e o susto do homem diante do automóvel nas ruas. Era a chegada do conceito de cidade moderna, que mudava a rotina dos brasileiros. Nesse período consolida-se, por exemplo, o fetiche do carro: emblema de poder e força para atrair mulheres. Nascia nas primeiras décadas do século, a obsessão pelos cuidados com a aparência. Esse culto era reforçado com o surgimento da prática de exercícios físicos e a chegada de produtos como cremes, loções, xampus e tinturas.
Os livros do romancista João do Rio, uma das melhores fontes de Sevcenko, mostram essa nova era. No romance A correspondência de uma estação de cura, de 1917, um personagem chamado Teodomiro Pacheco frequenta uma estação hidromineral para melhorar a imagem. Chega ao ponto de andar com duas malas: uma para as roupas e outra só com frascos para higiene e beleza. A mudança de hábito, registrada na sua miudeza por Sevcenko, passa por todos os cômodos da casa e alcança a privacidade máxima: o banheiro. É nesse momento que se inicia o desaparecimento da latrina, do penico, que serão então substituídos pelo water-closet, completado nas residências mais elegantes pelo bidet francês, relata o historiador. Nicolau Sevcenko ainda anota aspectos do jogo bruto da polícia e das autoridades para reprimir a música negra, fechar salões de capoeira e proibir festas populares.
Outro capítulo revelador é o escrito por Maria Cristina Cortez Wissenbach: Da Escravidão à Liberdade: Dimensões de uma Privacidade Possível. Ela estuda a cultura popular de comunidades rurais. Conta, por exemplo, o deslumbramento do escritor Mário de Andrade diante de cantadores de coco no Nordeste. O ritmo, hoje integrado à indústria fonográfica com o sucesso da cantora Selma do Coco, de Olinda, caiu nas graças do pop e urbano. Esse terceiro volume mostra ainda os limites da privacidade entre vizinhos no surgimento das metrópoles, o comportamento dos imigrantes, a dimensão dos humoristas no início do século e o mundo dos cartões-postais e álbuns de família.





