‘‘Era tudo igualzinho, tudo do mesmo jeito’’. Esta é a impressão geral que marcou o passeio de dois pioneiros ao reencontrarem parte de seu passado no Museu Histórico de Londrina.
Etelvino Campana, 83 anos, chegou a Londrina em 9 de setembro de 1933 - ‘‘Tinha muito mato, chovia o dia inteiro. Só ficava aqui quem era muito pobre e não conseguia sair da cidade’’. Maria Alice Bruggin de Arruda Leite, 73 anos, por sua vez, chegou em 1931, quando a maior parte do solo fértil e vermelho ainda pertencia à Companhia de Terras Norte do Paraná: ‘‘Sou frequentadora assídua do Museu. Venho quase todos os dias’’. Hoje ela preside a Sociedade dos Amigos do Museu (SAM), entidade sem fins lucrativos criada em 1995 para resgatar a história da cidade e levantar recursos para a revitalização do Museu. Encerrada a reforma, Maria Alice se vê encantada com o que vê: ‘‘Contém toda a história da minha vida’’.
O passeio se inicia na Galeria Histórica, um dos três pavimentos do Museu. O primeiro ponto relembrado é a Casa Central, uma réplica em madeira da primeira casa de comércio da cidade: ‘‘Me lembro da casa do David Dequech, era isso mesmo! Ele morava nos fundos’’ recorda Etelvino, com ar nostálgico embalado por um olhar que tudo reconhece. ‘‘Naquela época todos se conheciam, era tudo muito pequeno’’.
Maria Alice recorda que Dequech foi o primeiro presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL): ‘‘Não existe mais comércio como este, ele vendia de tudo’’.
Ao lado, em passos calmos, Etelvino reconhece o rancho de palmito que reproduz as primeiras habitações dos pioneiros: ‘‘Eu não cheguei a morar em casas deste tipo. Morei por muito tempo no hotel que meu pai construiu, o Hotel Triunfo’’. Viver em Londrina era melhor nos tempos da terra vermelha? ‘‘Não sei, meus pais sofreram muito’’, responde sob extrema simplicidade o homem, que apesar de ter nascido em Ribeirão Claro, adotou Londrina há 67 anos, antes mesmo da emancipação do município, efetivada em 10 de dezembro de 1934.
Na verdade, Etelvino foi batizado com outro nome: ‘‘Eu só fui saber quando fui me registrar. Meu nome é Vitelbino, mas todos me chamam de Etelvino, não sei por quê.’’
No Museu, logo após o rancho, há instalações que ambientam o escritório da Companhia de Terras Norte do Paraná e fotos das primeiras casas de madeira da cidade. Em seguida, há um modelo exato de tração simples que reproduz o método pelo qual as casas eram construídas. Maria Alice explica como o mecanismo funcionava: ‘‘Utilizavam estas serras para fazer as casas’’, o que surpreende Etelvino: ‘‘Então é assim que eles faziam. Eu via aquelas toras grandes e ficava imaginando...’’.
Há reproduções das primeiras atividades estabelecidas na cidade, chamada pelo poeta Nilson Monteiro de ‘‘terra roxa de paixão’’. Uma réplica da alfaiataria de Lupércio Luppi; exemplares do periódico Paraná Norte (criado em 09/10/1934); a cadeira de barbear do sogro de Celso Garcia Cid, seo Manoel Campin; a cadeira de dentista que na época era um dos terrores da cidade (não era costume ainda anestesiar o paciente); uma foto em preto-e-branco de tamanho natural da Rede Viária Paraná - Santa Catarina, a RVPSC (que, segundo Etelvino, era satirizada na época como Restaurante Vagabundo com Pastéis Sem Carne); e outra foto também imensa retratando a segunda estação rodoviária de Londrina. ‘‘Naquela época, eu andava muito de charrete’’, diz Etelvino, que por muito tempo trabalhou na fabricação de selas para cavalos.
No 1º andar do Museu, além da sala de imagem e de som (que possibilita ao público ver imagens filmadas por Hikoma Udihara), da biblioteca (reconstruída sob um ar modernamente nostálgico) da secretaria e da sala de direção (uma reconstituição da sala do primeiro pediatra de Londrina, doutor Afonso Haikal), há a Sala dos Pioneiros, verdadeiro recanto que preserva o ar provincial característico da antiga Londrina. O quadro fixado singelamente, um panorama da cidade em 1934, é imediatamente reconhecido por Etelvino: ‘‘Era deste jeito. As casas ficavam muito próximas’’.
Maria Alice recorda a turma dos Assustados, uma trupe de boêmios errantes que se aventuravam pelas ruas desertas a cantarolar: ‘‘Eles chegavam no meio da madrugada e se aproximavam de uma casa. Começavam uma serenata e logo a família acordava. Eram convidados para entrar e a família oferecia tudo do que dispunha - comida, bebidas, davam muito uísque.’’
Há também na Sala dos Pioneiros a reconstituição do primeiro telefone a funcionar em Londrina, na época pertencente à Companhia de Terras Norte do Paraná: ‘‘Não usávamos telefone. Para fazer uma ligação para São Paulo demorava uns quinze dias. Era melhor ir de trem!’’ pondera Etelvino, que também recorda os primeiros tempos do correio na cidade: ‘‘A gente se reunia na praça e começavam a distribuir as cartas’’.
O piano, que pertenceu à Rádio Londrina, a primeira da cidade, também consta da Sala dos Pioneiros: ‘‘Marco Antônio de Almeida chorou ao reconhecer que este foi o piano em que fez seu primeiro recital’’, avisa a diretora do Museu, a professora Conceição Duarte Geraldo.
Etelvino Campana e Maria Alice, dois pioneiros em Londrina, durante a passagem pelo Museu foram uníssonos: ‘‘está tudo aqui’’. O passeio, assim como uma viagem a países distantes, teve o estranho sabor unicamente proporcionado pelo mais tosco dos tormentos: o de que somos reais.

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