"Viagem ao Princípio do Mundo" sai em vídeo
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 22 (AE) - Há uma epígrafe de Nietszche para "Viagem ao Princípio do Mundo", filme de Manoel de Oliveira, que está saindo em vídeo. Diz alguma coisa como a necessidade de tornar-se mestre do caos onde se vive. Logo se nota que é uma obra sobre a memória. A recordação e, portanto, a saudade, esse sentimento tão português. Há outros atrativos. Trata-se do último trabalho do grande Marcello Mastroainni, a quem o filme é dedicado. Marcello já estava doente durante a rodagem e morreu pouco depois. Ele interpreta um alter ego do cineasta português. Isso nem é disfarçado; seu personagem se chama Manoel.
Pressentindo a morte, Manoel decide fazer um filme em seu país de origem, e viaja acompanhado de Leonor Silveira e de Jean-Yves Gaultier. O pretexto é uma escolha de locações. Serve, na verdade, para que o velho artista percorra os lugares de sua infância e juventude. Tudo muito nostálgico, palavra de conotação negativa, mas que precisa ser melhor pesada - e pensada. A princípio, tudo parece se resumir a uma comovente cerimônia do adeus. O homem doente, que antevê seu fim, revisita os lugares onde foi feliz. Ou julga ter sido. Vê, com pesar, as ruínas de um grande hotel onde ficou hospedado. Chegam a uma antiga estátua de madeira de um homem que carrega um tronco e se chama João Macau. A conversa parece meio fora de centro, mas refere-se aos fardos que todo têm de suportar. E assim segue o filme. Há outra sequência digna de destaque. Gaultier é filho de um português que deixou seu vilarejo, emigrou para a França, não voltou mais. Teve seus filhos no exterior. Gaultier vem a Portugal pela primeira vez e encontra-se com uma velha tia. Ela no começo não o aceita porque Gaultier não fala português. Como pode ser da família se não fala "a" língua? Incompreensível. Gaultier faz com que ela segure seu braço, com força, para que sinta sua pulsação. Falta-lhe o idioma, mas o sangue fala mais alto.
Há epifanias assim. Reencontro com o que foi destruído e o vento levou. Reencontro com as raízes e formação de novos laços. Uma vida que se tece na memória, justamente quando está prestes a terminar. Não é pura nostalgia. É tentativa de recuperação do passado, tarefa humana por definição. No caos da existência, de que falava Nietszche, só é possível tornar-se mestre por essa busca de referência que dê um sentido possível para a vida e também para a morte. Por isso Portugal é o princípio do mundo para aquele grupo, em especial para o velho Manoel de Oliveira, decano dos cineastas em atividade e ainda capaz de maravilhas como este filme. Serviço - "Viagem ao Princípio do Mundo". De Manoel de Oliveira, com Marcello Mastroianni, Jean-Yves Gaultier, Leonor Silveira. FlashStar.


