VIAGEM À SOLIDÃO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de março de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
A velhice é um estranho momento da vida para os olhos jovens e sadios e preconceituosos. Sem saber conviver com esse ser desgastado pela existência, muito embora tenha crescido sob sua sombra e cuidados, a solução é procurar um asilo. Deixar lá a imagem incômoda que de certo modo entorpece o clima de jovialidade reinante.
Esse terreno delicado e sensível é escancarado entre a sutileza e o riso na peça Últimas Luas, que será apresentada nesta hoje e amanhã, no grande auditório do Teatro Guaíra, em Curitiba. No elenco estão Antonio Fagundes, Cássia Kiss e Leonardo Brício. Início da sessão às 21 horas.
Detalhe importante: há anos o ator Antonio Fagundes prima pela exatidão do horário. Será proibida a entrada após as 21 horas, e não haverá troca de ingressos ou devolução de dinheiro. Aliás, quando deu início a essa norma, ele mandou instalar um relógio próximo à bilheteria do teatro, com um aviso alertando para a exigência.
Um dos grandes nomes do teatro, Fagundes vive no palco o papel de um homem de 70 anos. Intelectual, preza pela discussão inteligente, goza de prestígio, é estabilizado financeiramente, tem um humor preciso e disseca a problemática que vive nesse momento num embate consigo próprio e com o filho (Brício), que o vê internar-se num asilo. A aparência saudável do personagem foge ao desenho acabado do idoso fragilizado, à beira do leito de morte. Apesar disso o destino é imutável.
O velho nenhum dos personagens tem nome ocupa um quarto na casa do filho e se sente um peso estranho ali dentro. Resolve então ir para um asilo, mas o que gostaria mesmo era de ouvir uma frase, um pedido para que ficasse. Essa palavra ele não ouve.
A peça começa com o homem arrumando as malas para a viagem à solidão dilacerante. Enquanto dobra as roupas, conversa com a mulher (Cássia Kiss). O público percebe, pela condução do texto, que ela morreu ainda jovem, há muitos anos. Desse longo relato com a palidez do passado, num jogo de corpo a corpo desenha-se toda uma vida.
Para Antonio Fagundes, que ficou quatro anos sem pisar nos palcos, a peça toca o dedo na ferida. É incômodo, mas uma das funções do teatro é fazer que o público leve para a casa informações, mesmo que sejam emocionais. É ótimo que as pessoas despertem para a reflexão.
Vivemos numa sociedade na qual a velhice é encarada como doença, argumenta o ator. Para ele, a insistência da busca pela fonte da juventude denota tão somente uma realidade ainda não digerida pelo homem: O temor de encarar a morte, a finitude humana.
O espetáculo se estende como um monólogo de Fagundes com as precisas intervenções de Cássia Kiss e Brício. Entre os medos que rondam o velho está sua adaptação num espaço jamais pensado por ele o asilo. Para seu filho é natural que o pai tenha esse fim. A dificuldade de comunicação é um dos temas da peça, entende o diretor Jorge Takla. Na conversa com o filho ele tenta criticar a mentalidade fria e masculina da eficiência, mas foi ele quem criou o filho dessa forma.
Naturalmente que o ancião gostaria de ouvir do rapaz palavras de apoio, que ele reconsidere sua decisão e permaneça ali. Entretanto há uma cultura que foi alimentada durante toda uma existência e formou-se então um homem incapaz de fazer esse pedido. Últimas Luas não aponta inocentes ou culpados. Poderia-se dizer que em algum ponto todos são vítimas ou consequências de seus próprios atos. A vida tem o dom de engessar na alma os valores e conceitos empregados.
O espetáculo estreou ano passado em São Paulo. A peça do italiano Furio Bordon foi montada em 13 países, tendo sido traduzida no Brasil por Millôr Fernandes. Antonio Fagundes confessou que durante os ensaios eu e o Takla rimos muito e choramos muito porque o texto fala com extrema contundência e humor sobre essa sociedade de consumo na qual a produtividade é a medida de todas as coisas.
Últimas Luas, de Furio Bordon, direção de Jorge Takla, com Antonio Fagundes, Cássia Kiss, Leonardo Brício. Hoje e amanhã, às 21 horas (não será permitida a entrada após o horário). Censura 12 anos. Ingressos: R$ 30,00 (platéia e 1º balcão), R$ 20,00 (2º balcão). Não serão aceitos cheques.


