Uma viagem de cinco semanas à Europa. Na mala, uma bolsa para escritores brasileiros. Na volta, um livro multifacetado sobre o fazer poético. Por mais de um mês, o poeta, jornalista, tradutor e compositor londrinense Rodrigo Garcia Lopes vai revisitar locais que conheceu há 15 anos e vivenciar a experiência do ‘‘depaisamento’’, numa tentativa de erigir uma ‘‘poética de passagens’’. Ele embarca hoje, tendo como primeiro destino a Alemanha.
A experiência é fundamental para terminar um poema épico que o poeta vem escrevendo há tempos. Com ele, Rodrigo pretende concluir o livro ‘‘Polivox’’, um projeto poético experimental iniciado há cerca de um ano e com o qual foi contemplado no programa de bolsas da Fundação Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, ao lado de nomes como o do escritor Cristovão Tezza, entre outros. O livro deve ser publicado ainda este ano. Rodrigo já está em contato com a editora Iluminuras, que publicou outros cinco livros seus, inclusive os dois de poesia, ‘‘Solarium I’’ e ‘‘Visibilia’’.
A bolsa, instituída pelo Departamento Nacional do Livro da Fundação Biblioteca Nacional, foi concedida a dez escritores brasileiros com obras em fase de conclusão. Os selecionados terão quatro meses, a partir da assinatura do contrato, para entregar a obra concluída. Rodrigo, com a metade do livro praticamente pronta, se inscreveu e foi selecionado. ‘‘O grande barato é que os dados pessoais dos autores de cada projeto ficavam em um envelope à parte. As obras não eram identificadas. E o meu projeto foi o único unânime entre os três júris a que foi submetido. Só com isto, eu já fiquei satisfeito porque me dá mais segurança para ir em frente’’, explica.
E o projeto é controverso. ‘‘Polivox’’, segundo ele, tem como objetivo explorar as diversas - no sentido de conflito, divergência e não apenas variedade - possibilidades poéticas que se apresentam aos poetas neste fim-de-século. Com 80 a 100 poemas, o livro é dividido em três seções e pretende, num primeiro momento, apontar para a sintomática ploriferação de discursos e vozes - numa época onde a mídia domina - a convivência de estilos poéticos num mesmo período histórico. ‘‘Polivox são muitas vozes. Diferente de muitos críticos que cobram dos poetas uma linha definida, Polivox tenta ser uma recusa à idéia de que o poeta hoje deva ter uma única ‘voz’ poética coerente. Tenta, aliás, expandir e criticar este conceito’’, analisa.
A primeira seção é justamente ‘‘Polivox’’, onde Rodrigo passa a limpo e revisita, com um olhar de hoje, algumas experiências poéticas deste século: o dadaísmo, o surrealismo, o imagismo, a colagem, entre outros. Para ele, paradoxalmente aos tempos atuais, o poeta volta a ser uma espécie de ‘‘xam㒒 que pode incorporar várias ‘‘entidades’’, vozes, visões. ‘‘Hoje, os poetas têm todo um repertório, um passado, uma herança poética acessíveis para serem revisitados, e uma possibilidade de convivência dentro disto tudo. Não é um vale-tudo como querem os críticos, mas uma característica estética de nossa época’’, diz.
Na segunda seção, ‘‘Olhares’’, os poemas dialogam diretamente com o zen-budismo e, especificamente, com as imagens do fotógrafo nipo-brasileiro, radicado em Londrina, Haruo Ohara, que foi objeto de uma primeira exposição de suas fotos e que foi revelação da Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba deste ano. Rodrigo foi o curador desta exposição em Londrina e na Bienal. E, segundo ele, a convergência destas duas linguagens - escrita e imagem - criou uma terceira ‘‘voz’’. ‘‘Aqui eu revisito um personagem que criei, em 84, o poeta zen-budista Satori Uso (em tradução livre, significa falso brilhante), para publicar meus poemas numa página de literatura que eu editava na Folha. Criei um heterônimo que adquiriu voz autônoma’’, explica.
Rodrigo sabe que pode enfrentar críticos furibundos com sua ousadia, principalmente a de ir contra a tendência atual da poesia brasileira de fazer poemas curtos, apresentando um poema longo, com narrativa, na terceira e última seção, ‘‘Experiências Extrordinárias’’. ‘‘Hoje há uma corrente poderosa de poemas de rápida leitura, chegando a um tal ponto que houve até a banalização do hai kai’’, garante.
Segundo ele, este poema longo é todo marcado pela descontinuidade e pelas metamorfoses constantes, além da incorporação de outras linguagens, borrando as fronteiras entre prosa e poesia, ensaio e poema. ‘‘Eu pretendo que seja um poema experimental que se guie pela lógica de nosso fim-de-século: uma escrita tecida e interrompida por súbitos links de rede, conexões que levem a outro local ou outro poema. Uma espécie de buraco negro que vai sugar para dentro tudo o que for relevante, dentro do seu contexto, desde uma notícia no jornal a uma conversa entreouvida em uma estação de trem’’, conta.
Outro tema presente, segundo Rodrigo, é o do ‘‘desterro’’, a sensação comum, em eras de globalização, de não pertencer a lugar nenhum. Idéia que vai ser trabalhada inclusive visualmente, ‘‘envolvida’’ por vários registros e linguagens diferentes. ‘‘Este é um eco de nossa época, aquele coisa de zapping, de passar os canais de TV rapidamente através do controle remoto’’, diz.
Sem medo de críticas, Rodrigo acredita que esta é a hora de transcender seus limites, sair da segurança daquilo que deu certo e experimentar novos caminhos. ‘‘Os puristas podem achar que é um besteira, mas eu tento detonar a idéia clichê de que a poesia é somente a expressão do ‘eu’ e atentar para o fato de que a poesia é ‘linguagem intenção’, como diria Otávio Paz’’, assegura.Arquivo FolhaRodrigo Garcia Lopes: ‘‘Polivox tenta ser uma recusa à idéia de que o poeta hoje deva ter uma única ‘voz’ poética coerente’’Telma Elorza

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