VIA-SACRA EM TAMANHO NATURAL
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de dezembro de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O escultor Jonas recriou, em mármore sintético, várias peças que narram o sofrimento de Cristo. As obras pertencem à Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, de Londrina
A encomenda era peça única, um Cristo ressuscitado dominando a gravidade. A paróquia, ao recebê-lo, gostou do resultado e pediu outra escultura: a de Nossa Senhora Auxiliadora. Diante da entrega adiantada e da imagem satisfatória, veio o pedido completo: realizar toda a Via-Sacra.
O escultor Jonas Lima Corrêa Neto já havia trabalhado muito, mas nunca recebeu uma encomenda tão portentosa. Se impressionou com o volume de esculturas, com o tema, o simbolismo e o prazo. E entrou em uma dinâmica de produção obcecada. À noite, sonhava com passagens bíblicas. A pesquisa se estendeu ao vestuário, ao ângulo de visão, à proporção, às paredes que abrigariam os trabalhos. No final do período, que durou cerca de um ano, Jonas havia concluído a Via-Sacra com 15 (ao invés das 14 convencionais) obras em tamanho natural, cada uma com três figuras.
A Via, o Cristo e a Nossa Senhora aportaram em seu destino há cerca de dois meses: a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Londrina. Ainda não houve inauguração oficial das peças, pois a igreja passa por detalhes de finalização. Os casamentos não foram liberados, mas há missas aos sábados e domingos.
Como a igreja é grande, a obra se acomodou bem, destacando-se pelo volume. As figuras parecem sair da parede. A 15ª peça trata justamente da ressurreição, quando Jesus deixa o túmulo auxiliado por um anjo, enquanto o guarda romano dorme. A parte final foi a que mais me empolgou pelas cenas e pelos movimentos. Por isso alternei entre uma peça do começo da Via-Sacra e outra do final. Quando terminei, eram 15 peças, comenta o escultor.
Nascido em Pinhalão (Norte Velho do Paraná), Jonas morou em Cuiabá, onde realizou várias obras. Atualmente vive em Curitiba e viaja com frequência a Londrina para trabalhar. Quando pensou que havia encerrado o serviço na cidade, recebeu outro convite. A idéia agora se concentra no altar, onde Jonas pensa na possibilidade de retratar a Santa Ceia. Por enquanto, só há rascunhos.
Pairando nas paredes como blocos de pedra entalhados, as obras do artista na verdade são moldadas, e obedecem a uma técnica que mistura resina e mármore sintético. Jonas constrói cada escultura modelando argila, em alto-relevo. Em seguida, faz um molde com gesso onde dá forma ao material sintético. A aparência é de massa compacta, sólida. Na realidade, o resultado é oco e leve, facilitando o transporte e a instalação.
O processo criativo é pessoal. Jonas busca inspiração em quadros e figuras, mas a maior parte de seu trabalho vai se construindo de forma própria e quase febril. Pelo menos uma das peças da Via-Sacra foi feita em uma única noite. Outras demoraram meses. Cheguei a trabalhar 30 horas seguidas, comenta.
Em várias figuras o autor acrescentou interferências que dialogam com o estilo clássico que adotou. A Nossa Senhora Auxiliadora, por exemplo, aparece sem cetro e coroa, mais humana. Em uma das passagens da Via-Sacra, A Terceira Queda, a espada do soldado romano foi substituída por uma arma medieval. Eu tive toda a liberdade de construção, e utilizei algumas intervenções artísticas, revela.
Para o padre Carmelo, da paróquia, o resultado foi bom: A primeira encomenda foi o Cristo, ele nos trouxe e agradou. Então conseguimos os doadores, e aqui estão as obras que destacaram bastante a igreja. A inauguração oficial, no entanto, ainda não tem prazo determinado. Só deve ocorrer quando a obra estiver pronta mesmo, ressalta o padre, referindo-se a toda a construção.
Jonas, que é autodidata e se profissionalizou por conta própria, não consegue precisar quantas esculturas tem espalhadas pelo país. Acho que passam de 600. Peças grandes, ficam em torno de 40 ou 50. Eu me perdi, foram muitas coisas, a maioria está no Mato Grosso.
Enquanto detalhes são acertados nas esculturas, Jonas divaga observando o altar. O próximo quebra-cabeças já foi estabelecido. Após o período de gestação, o esforço produtivo será direcionado ao espaço mais importante da igreja.


