São Paulo, 08 (AE) - O que a maioria das pessoas sabe sobre amor, sexo e relacionamentos daria para encher um livro. Esse livro é "Estranhos no Paraíso". A afirmação é de ninguém menos que o inglês Neil Gaiman, um dos gênios dos quadrinhos contemporâneos. Esse, aliás, é um dos muitos elogios que a série "Estranhos no Paraíso", do norte-americano Terry Moore, vem recebendo desde 1993, quando as primeiras histórias chegaram às livrarias dos Estados Unidos. O trabalho é uma fonte de água potável no meio de um deserto povoado por super-heróis coloridos e musculosos.
Em 1998, a Editora Abril lançou por aqui três edições de "Estranhos no Paraíso", uma espécie de cartão de visita da série. Depois disso, ficou uma lacuna, agora preenchida pela Via Lettera, que acaba de publicar o primeiro de dois volumes de "Estranhos..." (112 páginas, R$ 19,00) com os nove capítulos do arco de histórias intitulado "Sonho com Você". Para completar, a editora lançou, simultaneamente, um belo exemplar dos quadrinhos nacionais: "10 Pãezinhos - O Girassol e a Lua", dos irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.
"Estranhos no Paraíso" chamou a atenção do universo do quadrinhos quando recebeu, em 1996, o Prêmio Eisner (o Oscar do gênero) como melhor série continuada. Foi uma ascensão meteórica do poeta, dublê de músico e desenhista Terry Moore, que publicara sua primeira minissérie apenas três anos antes, pela pequena Antartic Press.
Mas, afinal, qual é a razão de tamanho sucesso? Simples. Como disse Neil Gaiman, "Estranhos no Paraíso" fala de pessoas comuns, em ambientes comuns, em busca dos principais alimentos da alma humana: a felicidade e o amor. A trama gira em torno de Katchu e Francine, duas jovens amigas cheias de angústias e dilemas sobre a vida. A primeira é linda, independente, decidida e possui um passado misterioso. A outra é quase o oposto da amiga: um pouco neurótica, sempre acima do peso ideal e extremamente ingênua.
A maneira como Moore constrói a intrincada relação entre as duas jovens - e dos personagens secundários -, alternando momentos divertidos com a presença de temas sérios como aids, prostituição e até uma leve sugestão de lesbianismo de Katchu - o que é dissipado logo depois -, foi uma das principais causas do sucesso da série, que é publicada atualmente em oito idiomas. Tudo isso com o traço limpo e o belo trabalho de luz e sombra do autor - que, com exceção das capas e pôsteres, desenha todas as edições de "Estranhos no Paraíso" em preto-e-branco.
Para Moore, histórias sobre sentimentos são interessantes para todas as pessoas, não importa quem sejam ou onde vivam. "Qualquer um pode identificar-se com essas histórias, porque todo mundo já amou, odiou, sentiu alegria e tristeza", afirma o autor, em entrevista de seu estúdio Abstract, em Houston, Texas.
Por incrível que pareça, Moore ainda desenha e escreve sozinho todo o material de "Estranhos..." A cada seis semanas, uma história tem de estar pronta. A única ajuda vem de sua mulher, Robyn, que cuida da parte administrativa do estúdio. Com tanto trabalho, ele já pensa em chamar reforços. "Às vezes eu gostaria mesmo de ter ajuda, porque os deadlines estão quase me enlouquecendo", admite Moore. "Mas quando canso e quero fazer uma pausa, sento e fico olhando as nuvens passarem pelo meu loft
que fica no terceiro andar".
Apesar da pressão exercida pelos dos prazos, o desenhista diz que não tem do que reclamar. "É claro que normalmente não dá para relaxar e curtir a situação", conta Moore. "Mas ao mesmo tempo sei que tenho o melhor emprego do mundo, pois sou o cara cujo trabalho é levantar todos os dias e fazer um novo número de "Estranhos no Paraíso"; o que pode ser melhor do que isso?"
Moore enveredou por vários caminhos antes de estacionar nos quadrinhos. Foi guitarista e compositor de banda de rock, editor de uma emissora de TV em Dallas e estudou a arte da interpretação. Ele confirma que tudo o que se refere à arte serve de base para seu trabalho. "Sou um verdadeiro produto do século 20, estudei e encontrei inspiração em todas as formas artísticas e musicais dos últimos cem anos, de Ravel aos Beatles
de Picasso a Frank Miller".
Moore nunca veio ao Brasil. Mas são daqui dois de seus maiores ídolos: Ayrton Senna e Nélson Piquet. Fanático por automobilismo, o desenhista diz que acompanhou a carreira de Senna desde antes da Fórmula 1. "Ele foi o piloto mais rápido que já vi", elogia Moore. "Fiquei chocado quando ele morreu, não pude acreditar e ainda não acredito".
O outro lançamento da Via Lettera, "10 Pãezinhos - O Girassol e a Lua" (96 páginas, R$ 17,00), é um trabalho que também merece um olhar atento. Os irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá há muito batalham por um espaço em editoras. Finalmente ganharam um espaço digno da qualidade de seu trabalho. "O Girassol e a Lua" é uma história de amor que transita pelo gênero policial com pitadas de fantasia. Destaque para o belo trabalho de sombras de Fábio Bá. O livro será lançado quinta-feira, às 19 horas, na Fnac (Avenida Pedroso de Morais, 858).