Via Fax
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Violência capital
A violência em Brasília sempre choca mais do que em outras capitais. Os crimes em Maceió, por exemplo, repercutem menos, mesmo que sejam mais dolosos e brutais. Recordo o fiscal da Fazenda que foi assassinado, em Maceió, no tempo do Collor. Ele e sua esposa, ambos jovens, migraram dispostos a tentar a vida no Nordeste. Ele, fiscal da Fazenda, como já disse, fora substituir um colega que se afastava do posto.
Sonhar, morrer, esquecer
Muitos sonhos. Quantos sonhos não envolvem uma mudança dessas? Quantos planos? Foram convidados, por um vizinho de prédio, para um jantar de boas-vindas. Chegaram, certamente bem-arrumados, cumprimentaram a todos, foram festejados. O anfitrião, figura proeminente da sociedade alagoana e fã do presidente conterrâneo, quando soube que o convidado era fiscal da Fazenda, não gostou. E encasquetou que se tratava de um espião que viera parar ali apenas para incriminar o presidente seu ídolo, que, por essa época, já começava a ser investigado. Engrossou. Aconselhado pelos demais, o casal bateu em retirada. O anfitrião pegou da arma, perseguiu-os pelo prédio e matou o rapaz. Nem sei a que pena foi condenado. Não sei sequer se houve o julgamento. Foi em Maceió, está esquecido.
Gente virtual
Em Brasília sempre há mais repercussão. Há, também, um melhor acompanhamento do caso pela população. Acho até que, por isso, há mais rigor nas investigações e nos procedimentos da Justiça. Agora estou me lembrando do índio queimado vivo. Os assassinos são típicos monstrengos criados pela tevê. Imbecilóides, acham que tudo aquilo que aparece na tela é que é a verdade. De tanto ver tiros e cadáveres, acham que a morte é apenas efeito especial. E que não dói. Nada dói. Tiro, facada, atropelamento tudo é abstração, distração, game.
Tocha desumana
Ao serem interrogados, eles disseram que procuravam apenas distração na enfadonha noite da capital. Acharam um índio dormindo e resolveram brincar com ele. Encharcaram-no de álcool e atearam fogo. Assustaram-se com o efeito. Vejam vocês: eles se assustaram. De repente aquilo não era como viam na televisão. Era fogo de verdade; e, de verdade, também, gritava o homem em chamas. A tocha humana, como costumam dizer nos telejornais, estava ali, mais desumana que nunca, ardendo, correndo, gritando, morrendo.
Concreto
Agora a vida deles também vai passar a ser assunto de tevê. À frente das câmeras, porém, terão uma desagradável surpresa: as cadeias não são cenários e fedem. As camas duras das celas doem. A comida do xadrez embrulha o estômago, é repugnante e concreta, ao vivo. Talvez aprendam algo com o castigo e evoluam de estágio mental. Embora eu ache que não vá dar tempo.
Abstrato
Apesar da repercussão, acho que a pena será tão curta que não vai dar tempo para que assimilem qualquer ensinamento. Breve pensarão que tudo não passou de um pesadelo. Que logo será esquecido, em casa, enquanto, abstraídos diante da tevê, acrescentam mais algumas imbecilidades ao avançado estágio de idiotização, já tão comum nos filhos da moderna classe média. Por serem nossas leis malfeitas, ainda que aplicadas rigorosamente e que a sociedade exija ainda mais vigor, não há esperança de que o final desse processo seja diferente do que estou descrevendo.
Absolto
A violência não discrimina. A Lei e a polícia, sim. A Justiça, menos. A violência, não. Maceió é pródiga em exemplos. Lá, o filho do ex-governador Geraldo Bulhões foi recentemente julgado por ter matado um funcionário com quem tivera um aborrecimento. Atirou pelas costas, sem a menor justificativa. Venceu a tese da legítima defesa. Foi absolvido. Será julgado de novo apenas porque os promotores descobriram que um dos jurados era menor, e conseguiram anular o julgamento. Se não, já estaria solto. Só se consegue infiltrar um menor num julgamento desses, para votar por uma absolvição, quando funcionários do Judiciário trabalham contra a Justiça. Não se pode esquecer, portanto, que, antes de ser a virtude do Direito, a Justiça é um órgão federal como qualquer outro, cheio de mazelas e de servidores públicos o que dispensa maiores comentários.
Reprimo mas não prendo
(Leonel Brizola)
As leis são criadas pelo Congresso e apenas por congressistas. Isso talvez explique a razão de uma delas permitir que um político que deu dois tiros no rosto de um outro que jantava desatento, num restaurante, na Paraíba seja, hoje, senador da República e que, ainda, e graças à lei da imunidade parlamentar, não possa ser preso. E porque muitas delas condenam, mas não punem. A frase de Brizola, no subtítulo, proferida quando ele era governador, a respeito dos contraventores do bicho, é apenas uma homenagem a esse fiel cumpridor das leis e uma pequena amostra do que pode pensar um político a respeito delas.
Trabalho da Justiça
Os magistrados até que procuram, de uma maneira geral, cumprir bem seu trabalho. Porém, num quadro em que regulamentos e leis permitem que quem atire pelas costas seja absolvido e que quem ateie fogo a uma pessoa tenha a possibilidade de ser condenado a um máximo de três anos, e, ainda, que, por ser réu primário, possa responder pelo crime em liberdade, os juízes nem sempre podem fazer grande coisa. Mesmo quando agem com o mais absoluto rigor.
Ironia
Ironia: o grilhão da Justiça é a Lei.
Legado brasileiro
Lei de Gerson.
v
Lei do mais forte.
v
Lei do silêncio.
v
Lei que não pega.
v
Lei da rolha.
v
Lei da selva.
v
Lei de exceção.
Gutemberg Guarabyra, da Agência Estado.
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