VIA FAX
Período de orações
A explosão da moeda tem duas faces: a do bom e a do mau sentido.
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Mundo moderno: ‘‘O meu dinheiro tem mais bytes do que o seu!’’
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O desejo é louco mas não é cego.
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Risque meu nome do teu inferno.
Pessimista, realista, otimista
Bom-dia, dizia o pessimista. Mas já é noite, dizia o realista. Nunca é tarde, o otimista dizia.
Boa-noite, dizia o pessimista. Mas nem é dia, dizia o realista; o otimista dizia: nunca é tarde.
Nunca é tarde, dizia o pessimista. Nunca é tarde, concordava o realista. Boa-noite, e dormia o otimista; bom-dia, dizia quando acordava.
Sentenças
Uma simpatia de bruxa.
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Ciúme não é crime. É quase.
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Padre nosso que estais no céu, que mulher infernal!
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Mal sem raiz, não há como arrancar.
Árvore
O que será uma árvore? Arrancaram, daqui da porta, a mais bonita da rua. O funcionário da prefeitura disse que precisava podá-la para que a pudesse curar de uma doença. Taí um argumento imbatível. Todos se conformaram, tristes, porém resignados. Seria melhor para ela.
Mentira
Era mentira. Descobri, tarde demais, que era mentira. Só podia ser. No fundo, algo sempre me dizia que uma árvore tão bonita, que cobria de verde quatro andares, não poderia estar doente. Não tinha aspecto de doente. E, de fato, não estava doente.
Maldade
Se soubesse que era mentira, eles não a teriam cortado. Eu não deixaria, mesmo. Ela não teria caído, o prédio não teria ficado nu, ridículo, como ficou, e a gente tão sozinha. Era alta, muito alta, e era de uma espécie que cresce em forma de leques abertos, sustentados por troncos grossos e fortes. O vento batia e ela respondia com farfalhar e movimento, e alegria. Mesmo os ventos mais fortes não a ameaçavam e, assim, ela não ameaçava os outros com quedas de galhos. Era forte, muito forte, a árvore que derrubaram por maldade.
E daí, e daí...
‘‘Ora’’, indagarão os leitores, ‘‘e eu com isso?’’. Nada, sou obrigado a reconhecer. Filmei os homens que a derrubaram. Ofereci a denúncia a uma tevê, responderam que era pouco para ocupar o tempo dos telejornais.
Morte
Lembrei do menino que a Guarda Metropolitana matou outro dia, aqui em São Paulo, onde moramos, eu e a árvore.
Vida
Foi espancado e morto porque passou cantando diante de um quartel. O desrespeito custou-lhe a vida. A imprensa falou no assunto apenas por dois dias; depois também virou pouco para ocupar os telejornais. Menino enterrado, assunto soterrado.
Palavras
A árvore, pelo menos, está renascendo e logo estará presente de novo. Desci à calçada e observei novos brotos. Já o menino não poderá renascer. Está enterrado e morto. Talvez seja assim mesmo a cidade grande, onde não há mais tempo para meninos nem para árvores. Nem mesmo para palavras. Os responsáveis pelo telejornal, a quem pedi que noticiassem o fato, reagiram com tremendo mau-humor.
Detalhes
É assim: a cidade cresceu demais. Detalhes que são importantes para poucos, não interessam. Pena que crimes perpetrados por agentes do governo, que são pagos inclusive com o dinheiro das próprias vítimas, também sejam considerados de interesse de poucos. Assim, enquanto a polícia assassina meninos, a mídia só fala em queda nas bolsas e escândalos financeiros, que eletrizam a todos. Comecei perguntando o que seria uma árvore. O que será um menino? Algum editor por aí ainda sabe o que é um menino?
Pense
Quem tem Globo tem tudo. Não dá nem para selecionar.
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Folheando a enciclopédia fica difícil entender onde foi que erramos.
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A criança que procura adiantar a juventude, está a retardar a velhice?
Gutemberg Guarabyra/Agência Estado

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