VIA FAX
Não esquecer
Há um quartel do Exército, no Rio, na Tijuca, perto do Maracanã, de que eu não consigo me esquecer. Sempre que passo por ali, fico olhando a calçada diante da porta principal e imaginando a cena: um professor e dois alunos, um jovem e uma moça retornam da faculdade e se aproximam do quartel. Em frente conversam alguns recrutas. Um deles, de sentinela, gosta da menina, acha-a atraente e fica de olho nela. Quando o grupo avança mais, ordena que parem. Revista-os. Separa a moça, dispensa os demais, e a leva para o interior do quartel. Lá dentro, a estupram e torturam durante dias e, finalmente, a matam. Impunemente. Esse era o Exército Brasileiro durante a ditadura militar. Acho que nem os recrutas da SS nazista tiveram tanto poder. Poder de vida e de morte sobre qualquer um. Uma mãe, velhinha, fala para o repórter, na tevê: ‘‘Está faltando um pedaço, aqui, dentro de mim’’.
A ditadura
Chico Buarque, o poeta, já tinha posto esta frase nos lábios de outra mãe. Da mãe de Stuart Angel, o garoto que foi amarrado, com uma corda, a um jipe militar e arrastado, por horas, no pátio de um quartel do Exército, durante o regime de exceção. Stuart morreu à vista dos demais prisioneiros que, das janelas, assistiram ao assassinato oficial. ‘‘Como exemplo’’ foi a justificativa.
Repensar
Os poetas, os escritores, são capazes de sentir a dor de outras pessoas de maneira tão real que chegam a adivinhar-lhes as frases. E escolhem as mais significativas para representar a dor que, deveras, sentem. Mesmo assim, jamais a sentirão para sempre. Logo falarão de outras coisas e deixarão de repensar, de ressofrer. E não lhes ficará faltando um pedaço, aqui, dentro, minuto a minuto, e eternamente.
O vazio
Este pedaço faltando será, para sempre, um vazio, um soco, sem fim, no peito das mães apartadas dos filhos. E, eternamente, no peito apertado da mãe daquele menino franzino, gago, que não conseguia explicar-se à Guarda Metropolitana de São Paulo que o matava a pancadas, na semana passada, dentro do quartel. O motivo? Passara por ali cantando, e isso havia irritado um recruta. Quando caía por não conseguir mais ficar de pé, era levantado e chutado, até que caísse de novo. E até que caísse para sempre, franzino o menino morto é franzino e inocente. Esta voz não posso mais esquecer. Vem da mãe do menino para o repórter: ‘‘Moço, está faltando um pedaço em mim, aqui, dentro.’’
Não esquecer
Eu não. Eu não vou, eu não posso esquecer.
Crítica esclarecida
As formas figurativas do geometrismo são o objeto das gravuras da série que o artista batizou de ‘‘Ângulos/ângelus virtuais do tridimensional mineiro’’. No total são centenas de quadros em branco que valorizam o espaço cultural onde estão sendo expostos, frente a frente com o observador mitológico (ele próprio), e que o leva a pensar sobre as origens do nada, de onde, graças a Deus, todos viemos e para onde voltaremos um dia. Inclusive, o artista em questão. Não se percam!
Pipocando
Atualmente, para evitar a separação, melhor casar-se por ódio.
v
Viver é a única coisa que não dá para deixar para depois.
v
Que Deus trate bem Paulo Francis, no céu. Se não quer que ele O mande para o inferno.
Dormindo
Certa vez, apaguei no meio de uma festa, numa residência da alta sociedade carioca. Sentado num sofá, lá pelas tantas, cansado, tirei uma boa soneca que logo virou sono profundo. Por mim, já teria ido embora, mas acompanhava um amigo, compositor e intérprete de MPB, e tínhamos combinado voltar juntos. Mas, quando ele começou a tocar violão e a cantar, todos se concentraram para ouvi-lo, a balbúrdia silenciou e eu, ninado pelas supercanções, dormi.
Acordando
Uma gritaria me acordou. Abri os olhos e vi que meu amigo, cabeça baixa, violão apoiado no chão, ouvia, calado, a um monte de impropérios, despejados da boca de um ilustre visitante, contra sua música. ‘‘Medíocre’’ era o adjetivo menos ofensivo.
Gritando
Mal despertei, reagi instintivamente e berrei mais alto ainda. Chamei o agressor de ‘‘arquivo ambulante’’; coisa que o deixou ainda mais irritado. Só não esperava que a platéia, em que não tínhamos mais nenhum conhecido, já que, na época, iniciávamos nossas carreiras, também se irritasse com minhas respostas. Fomos, assim, ‘‘discretamente’’ levados para o elevador. Não precisamos sequer apertar o botão do térreo: eles o fizeram por nós e fecharam a porta.
Calando
Na descida, finalmente calei-me. Olhei para meu amigo, que continuava com a face tranquila e distraída de sempre. Ainda atordoado, quase acreditei, fitando sua expressão alheia, que tudo fora apenas um pesadelo.
Cantando
O bate-boca tinha sido entre mim e o legendário musicólogo, Lúcio Rangel, de quem continuei fã. Porém, quem ganhou a discussão, mesmo, foi, de longe, o silêncio e a música daquele compositor. Aquela mudez era a prova viva de que Milton Nascimento era pedra cantada. Nem precisava se preocupar. Muito menos brigar.
Gutemberg Guarabyra /Agência Estado

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