Quando eles surgiram, no começo da década de 90, causaram polêmica. A violência retratada nas letras foi vista como exagero. O rap provocava receios. Os anos se passaram e a dupla Thaíde & DJ Hum seguraram a coerência de um discurso incisivo, em que o hip hop aparece como agente de inserção social, propagador da cidadania. A atitude reverteu em respeito. Thaíde & Dj Hum deram a volta por cima e se colocaram entre os nomes mais importantes do rap nacional. A dupla se apresenta hoje em Curitiba.
Para quem se deslocar ao Moinho São Roque para conferir o show vale um aviso: ambos vão se apresentar como MC e DJ, ou seja, voz e efeitos de toca-disco, apoiados por duas backing vocals. Como não há banda, o som promete ser mais seco, menos melódico, mais rítmico e contundente.
Veteranos no assunto, Thaíde & Dj Hum foram os pioneiros ao divulgar no país os quatro elementos do hip hop: o MC (mestre de cerimônias, equivalente ao cantor), o DJ (responsável pela dinâmica e pelos efeitos com toca-discos), o break (a dança do rap, protagonizada pelos B-Boys) e o grafite. O conjunto sonoro desta mistura é o rap (rythm and poetry – ritmo e poesia), cantado de forma parecida com a fala, característica que fez o pesquisador José Ramos Tinhorão compará-lo às emboladas brasileiras.
O repertório deve girar em torno do disco ‘‘Assim Caminha a Humanidade’’, lançado recentemente. ‘‘Eu, particularmente, não venho apenas para fazer o show, mas também para saber como anda a cena hip hop em Curitiba. Preciso desse tipo de informação’’, explica Thaíde. Além de compositor, Thaíde também apresenta o programa ‘‘Yo’’ na MTV, voltado para o hip hop.
Bem recebido pela crítica, o novo álbum está ganhando repercussão. ‘‘Quando a estávamos em estúdio, já sabíamos que ia agradar. Depois que chegou às ruas ficamos surpresos com a forma que as pessoas receberam, foi além do que a gente imaginava, a aceitação de público e crítica veio em dobro’’.
Para o compositor, o hip hop tem dado demonstrações claras de que é uma ferramenta importante no combate à marginalização e ao preconceito social: ‘‘A gente percebe que as pessoas que já faziam parte do hip hop desenvolveram trabalhos paralelos... Houve um crescimento pessoal. A gente vê que as pessoas estão se aperfeiçoando profissionalmente. Isso revela o horizonte que o hip hop mostra’’.
Ao mesmo tempo em que se espalha por todo o país, o movimento deixa de ser estritamente periférico para atingir classes sociais mais abastadas. O rap ganha espaço dentro da música brasileira – fora da alçada do movimento – tanto nas raias do pop quanto na MPB, usado como recurso por grupos e compositores como Pedro Luís e a Parede, Raimundos, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Zeca Baleiro, por exemplo.
Enquanto o hip hop busca escancarar os problemas nacionais, o ‘‘funk carioca’’ ou ‘‘tecno funk’’ vem galgando as paradas como entretenimento. Ambos surgiram na periferia, mas não devem ser comparados. ‘‘Nós preferimos nos voltar para o que estamos fazendo ao invés de pensar no funk, que está sendo muito explorado, é melhor ficarmos de fora. Eu, particularmente, não gosto deste funk que está a풒, revela Thaíde.
O rapper acentua que, comparada aos primórdios da dupla, a situação mudou para o hip hop nacional: ‘‘A violência não tinha a divulgação que tem agora. Quando essa violência atingiu a classe média é que a mídia começou a se preocupar com isso. Quando a gente subia no palco as pessoas achavam que era exagero o que cantávamos. Hoje elas sofrem as consequências de um mal que poderiam ter ajudado a combater’’.
Thaíde & DJ Hum – Show ‘‘Assim Caminha a Humanidade’’, hoje às 22 horas, no Moinho São Roque (Rua Desembargador Westphalen, 4000, em Curitiba). Ingressos antecipados entre R$ 8,00 e R$ 10,00. Na hora varia entre R$ 10,00 e R$ 12,00.

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