Vestimentas cheias de axé
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de outubro de 1998
Silvana Leão 
DivulgaçãoOs mais de mil meninos e meninas atendidos pelo Projeto Axé, desenvolvido em Salvador (BA), estão em estado de euforia. Eles preparam os últimos detalhes da 3ª FestAxé, maior evento realizado no Brasil por ONGs (Organizações Não Governamentais) que trabalham com os direitos da criança e do adolescente. Todas as oficinas criativas do Projeto, como música, dança, teatro, moda, vídeo e artesanato estão envolvidas na preparação de roupas, adereços e performances que compõem o tradicional desfile, realizado a cada dois anos na capital baiana.
Agendada para o dia 20 de novembro no Cais do Porto, ao lado do Mercado Modelo, a 3ª FestAxé vai apresentar ao público os 148 modelos que fazem parte da nova coleção da ModAxé, grife comercializada nas lojas mantidas pelo projeto em Salvador. Os trajes serão mostrados pelas crianças, funcionários e convidados ilustres, entre eles Carlinhos Brown, Maria Bethânia e Gilberto Gil.
A coleção que estará na passarela marca uma nova fase da grife, que agora é toda concebida pelo brasileiro João Éverton, artista multimídia responsável pelas roupas e por toda a parte de criação do desfile. Se tudo der certo, 1998 também vai registrar um salto nas vendas destas roupas, inspiradas nos meninos e meninas de rua. Segundo João Éverton, que coordena ainda as oficinas do Axé, até o final do ano deverão ser instaladas franquias da grife em outras regiões, além de serem contratados representantes para revendê-la dentro e fora do País.
A ModAxé passou por uma fase de experimentos, até que fosse definida a personalidade desta moda, hoje voltada para o streetwear. Fizemos uma releitura deste estilo, comenta o estilista. João Éverton lembra que, até pouco tempo atrás, as coleções eram desenhadas por estilistas europeus, que utilizavam muito linho. Hoje em dia predomina a praticidade, em tecidos rústicos como a sarja e o brim e os sintéticos. A grife está mais informal e traz estampas criadas pelos próprios meninos atendidos pelo Axé.
A roupa tem uma função pedagógica, além de fazer parte de um projeto de auto-sustentação, por isso a moda que apresentamos está voltada para o mercado. É mais produto que delírio, define João Éverton. Para criar o desfile-show de lançamento da coleção, ele se baseou no tema Desejo, que será trabalhado de várias formas: vídeo, dança, moda, sonoridade, coreografias de capoeira e, com certeza, outras atrações que João Éverton prefere manter em segredo, para não estragar a surpresa.
A passarela da FestAxé vai contar a história humana do Desejo através de uma sequência de flashes que começam no período Neolítico (Deus desejou criar o homem), passa pelo desejo do homem de dominar e transformar a natureza, vai aos gregos e seu desejo de um Deus humano, chega ao Egito e ao desejo humano de ser eterno como Deus, navega nos desejos de conquistas do novo mundo, visita a escravidão e o desejo de libertação e finalmente aporta nas ruas da Bahia, onde a Pedagogia do Desejo, uma criação do Projeto Axé, resgata o sonho e a vontade de viver em meninos e meninas que a desestruturação social joga às ruas.
Nesta trajetória, Maria Bethânia vai incorporar a Deusa do Desejo, Gilberto Gil interpretará o Desejo de expressão de uma raça e Carlinhos Brown representará o Desejo de vencer.
A Pedagogia do Desejo do Axé tem sido referência mundial de trabalho educativo com crianças e adolescentes em situação de risco. Cesare La Rocca, presidente do Projeto, acredita que sem o desejo não há existência. Mesmo que a psicanálise afirme que o desejo não se pode ensinar, pode-se através do processo educativo estimular crianças e jovens que deixaram de sonhar e de desejar. Por sermos, todos, um bando de sonhadores com pés no chão, somos invencíveis, afirma.


