Vestígios de 1968
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 2008
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Quarenta anos depois que estudantes de vários países saíram às ruas dispostos a mudar o mundo, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, autor do já clássico ''1968 - O Ano que Não Acabou'', retorna àquela época conturbada em busca dos vestígios que influenciaram as décadas seguintes. O resultado está em ''1968 - O que Fizemos de Nós'', outro candidato a best-seller, que a editora Planeta lançou em um box unindo os dois livros (R$ 75).
''Minha preocupação foi encontrar no mundo atual o que nasceu ou se desenvolveu em 1968'', explica Zuenir, que dividiu o livro em duas partes. Na primeira, ele apresenta um relato do que ocorreu no Brasil ao longo desses 40 anos, identificando traços de 68 em pontos tão distintos e inusitados, desde as festas raves até a formação de políticos, independentemente se de esquerda ou não. Também os diversos caminhos abertos naquele período, como a liberdade sexual pós-pílula que, de uma certa forma, culminou na Aids, são discutidos como conquistas (ou não) daquela geração. Zuenir constrói habilmente um retrato dessas quatro décadas por meio de um diálogo entre os ícones de 68 com os jovens de hoje.
Como não foi um mero espectador dos fatos, Zuenir aproveita a segunda parte do livro para estimular um debate com importantes personagens, verdadeiras testemunhas oculares das transformações radicais sofridas no Brasil naquele ano, em cujo início ainda se respirava uma certa liberdade e cujo final foi marcado pelo tenebroso Ato Institucional número 5. Sobre isso, Zuenir conversa com Caetano Veloso, Fernando Gabeira, Heloisa Buarque de Holanda, Fernando Henrique Cardoso e outras testemunhas de um momento único.
Zuenir Ventura já se acostumou com uma pergunta inevitavelmente feita quando encontra as pessoas: ''Afinal, 1968 já acabou?''. ''Acho que escrevi '1968 - O Que Fizemos de Nós' só para responder essa questão, que eu já não aguentava mais ouvir'', diverte-se o escritor, ressaltando que 40 anos não configuram como um período necessário para se avaliar um fato histórico. ''Já em 68, Edgar Morin dizia que seriam precisos muitos anos para se compreender o que estava acontecendo. Portanto, ainda não é possível fazer uma avaliação definitiva.''
Naquela época, a cultura vivia em ebulição no Brasil, mesmo enfrentando a censura instituída pelo Golpe de 64. As artes dialogavam entre si, refletindo conscientização política e desejo de transformação. ''O curioso é que aquela garotada não fez uma revolução política, mas sim uma cultural, mudando os costumes, os hábitos, a maneira de pensar e de se observar o cotidiano'', acredita Zuenir. ''Movimentos como o ecológico, feminista, gay, em defesa dos negros, todos nasceram ou ganharam destaque em 1968.''
Ciente da impossibilidade de cravar a verdadeira herança daquele ano, Zuenir elabora, em seu livro, uma curiosa lista de mudanças e permanências das últimas quatro décadas. Assim, entre os que não terminaram estão a obra de Nelson Rodrigues, a pílula anticoncepcional, a força do capitalismo, a MPB, a guerra, a minissaia e o sonho, que é desejo, como ensinou Freud.
Já na lista do que terminou figuram o comunismo, os filmes de Godard (''Fora os frequentadores de festivais e cineclubes, quem entraria hoje numa fila para assistir a um filme dele?''), sexo sem camisinha, cabelo comprido, as passeatas, as idéias de Mao, Marx e Marcuse, o LP, o psicodélico, o palavrão (''Não sumiu, mas saiu de moda'') e as certezas (''Só resta uma certeza, a de que não as há mais''). Confira alguns trechos da entrevista de Zuenir sobre o assunto.
No livro, você entrevista personagens que vivenciaram intimamente os acontecimentos de 1968. É possível traçar um legado a partir de suas respostas?
Mesmo entre aqueles que tentam se afastar daquele ano, persiste ainda uma admiração por ele, que condensou muita coisa, mobilizou muitas pessoas esperançosas. Assim, há uma constante, entre os entrevistados, de que foi um ano importante mas imperfeito - cometeram-se muitos erros que hoje são reconhecidos. É curioso como hoje existe uma tendência, especialmente entre os franceses, de se fazer um inventário negativo de 1968, que seria responsável distante por todos os desregramentos da vida moderna: a permissividade, a decadência dos valores, a violência, o desrespeito pela lei. Temos de evitar esse olhar, maniqueísta, para não cometer o mesmo erro de 1968, quando as pessoas eram maniqueístas.
É possível imaginar como seria o Brasil hoje se não tivessem acontecido aqueles eventos?
Há algumas hipóteses, lembradas pelos próprios entrevistados. Caetano, por exemplo, lembra que, se ganhasse o socialismo, o Brasil seria agora um gigante burocrático com paralisia. Mas, se nada tivesse ocorrido, acredito que as perdas seriam maiores, sobretudo no comportamento, que deixou um legado mais positivo.
E hoje seria possível acontecer algo semelhante ao de 1968?
Para isso, volto a citar Caetano: segundo ele, para ser parecido, teria de ser completamente diferente. Não se trata apenas de um jogo de palavras.
O balanço, afinal, é positivo ou negativo?
1968 não foi só maravilhoso, ou só negativo. Havia uma busca pelos valores pessoais, que hoje se acirrou muito, com a fragmentação. Existia também um olhar generoso pelas minorias, enquanto as drogas, antes um instrumento de ampliação de horizontes, hoje provoca a morte. Enfim, 1968 foi muito plural.
- 1968 - O que Fizemos de Nós
Autor - Zuenir Ventura
Editora - Planeta
Páginas - 224 caixa inclui ''1968, O Ano que Não Terminou''
Quanto - R$ 75


