VESTIBULAR SEM RECEITAS
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sexta-feira, 05 de janeiro de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Antes, os estudantes não sabiam muito bem que livros deveriam ler. Mas desde o vestibular de julho do ano passado, o manual do candidato da Universidade Estadual de Londrina - UEL - passou a indicar as obras literárias exigidas para a prova, seguindo o modelo adotado em outros concursos pelo país.
A lista, elaborada por uma comissão formada por professores do Departamento de Letras da Universidade, contempla oito clássicos da literatura brasileira incluindo Dom Casmurro de Machado de Assis, Vidas Secas de Graciliano Ramos e Iracema de José de Alencar.
É possível supor que, a partir de sua divulgação, as bibliotecas e livrarias tenham sofrido acentuado aumento de visitantes. Por outro lado, não há como deixar de imaginar uma correria atrás de apostilas vendidas em bancas trazendo os resumos dos romances.
O vestibular da UEL começa no domingo. A prova de português é na segunda-feira. Será que os livros foram bem escolhidos? Será que os alunos leram as obras? O ideal é que eles leiam o livro, e faço tudo para motivá-los. O problema é que temos de atender turmas sobrecarregadas de cursinho, o que implica em simplificar as obras fornecendo apenas as informações básicas e necessárias para dar uma compreensão geral aos alunos explica Tamar Leal Martinelli, professora de literatura do Colégio Universitário.
A lista de livros, segundo ela, é criteriosa. Nada substitui os clássicos diz. Todos os títulos selecionados traduzem muito bem a época em que foram escritos e, por isso mesmo, levam o leitor a situar sua própria experiência no tempo, na história e no mundo. É difícil ter a mesma percepção diante de um romance contemporâneo, porque ele fala do que ainda estamos vivendo no dia-a-dia ou vendo na TV e no cinema.
O professor de Gramática e Redação, Dilson Catarino, tem opinião contrária. Responsável pelo departamento de Comunicação e Expressão do Colégio Maxi, ele critica a lista de livros do vestibular da UEL. Optou-se pela receita, pela mesmice e pelo tradicional lamenta. Todos os títulos escolhidos constam de qualquer lista de outros vestibulares do país. Poderiam ter usado mais criatividade mesclando autores clássicos e contemporâneos. Acho mais importante que o estudante de hoje leia Carlos Heitor Cony do que José de Alencar, por exemplo.
Catarino elogia a presença de Vidas Secas na lista, mas não vê razão na escalação do volume Contos Novos de Mário de Andrade. É um livro que contribuiu pouco para a formação do estudante. Há inclusive um texto cujos diálogos são em francês, o que acho um absurdo. Para o professor, o temor é que as más escolhas afastem para sempre o jovem dos livros.
Dizem que o jovem não lê observa. Na verdade, ele lê até a oitava série. As crianças lêem muito. O problema é quando ele entra no colegial e passa a ter contato com romances chatos. A rejeição à leitura vem daí. Se continuassem a lhe oferecer literatura prazerosa, ele provavelmente nunca abandonaria os livros.
Além de reivindicar narrativas contemporâneas na lista, o professor reclama da falta de autores regionais. Vestibulares de Curitiba cobram Dalton Trevisan e Cristóvão Tezza. Por que não colocar o Terra Vermelha, do Domingos Pellegrini, que é uma obra fundamental para se conhecer a colonização do norte do Paraná? pergunta ele.
Curiosamente, o próprio Pellegrini discorda do defensor de sua obra. Procurado pela reportagem, o escritor posicionou-se contra qualquer cota de regionalismo no elenco de livros cobrados no vestibular. O Terra Vermelha poderia ter sentido para os estudantes daqui, mas muitos candidatos são de outros Estados e seriam prejudicados com esse bairrismo explica.
Ele rechaça também a idéia de inserir autores recentes. Não temos distanciamento crítico suficiente para avaliar suas obras salienta. Elogiando a lista, Pellegrini conta que dela só não leu Laços de Família de Clarice Lispector e Recordações do Escrivão Isaias Caminha de Lima Barreto.
Os demais são ótimos livros diz. Todos os autores já fazem parte do patrimônio cultural brasileiro constituindo um acervo de obras consagradas e de respeitável fortuna crítica. Alguém, talvez, poderia fazer uma objeção ao romantismo passadista de José de Alencar. Mesmo assim, Iracema permanece como uma narrativa bonita, juvenil e prazerosa de ler. As escolhas foram corretas.
Além dos títulos citados, completam a lista os livros Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida e A Morte e a Morte de Quincas Berro DÁgua de Jorge Amado.


